Nua, pelada, despida e sem roupa

Estava eu, bela (!) e alegre tomando um café e lendo meu lindo livrinho, quando ouço dois caras na mesa atrás da minha comentando sobre alguém posando nua, não lembro se na Playboy ou na Sexy. Nas frases deles, estava a palavra pelada, várias vezes, intercalada com risinhos. O tom de suas palavras eram sempre carregadas de safadeza, desejo, tesão, dizendo que comeriam aquela bunda fácil-fácil.

Infelizmente, esse papo me desconcentrou e comecei a ouvir os dois. Falaram sobre a vagina na moça, sobre o canal da uretra dela e os pequenos lábios serem saltados pra fora, a depilação da moça (claro que não foram estas as palavras exatas), sobre a curva da bunda, sobre os peitinhos durinhos e bronzeados… Tá certo, as revistas realmente colocam as mulheres em posições sensuais para criar toda uma aura de fantasia, de mostrar o que poucos poderiam ver. Apesar de alguns ensaios realmente serem sensuais, os outros parecem vulgares. Mas por que isso?

Foi então que eu percebi que o que me incomodou na frase dos rapazes foi o ~pelada~ e o sentido que deram à ela ao se referir à moça. A palavra pelada carrega uma conotação negativa, tida como vulgar e a mulher que apareça pelada está necessariamente satisfazendo a fantasia do bonitão que está vendo o ensaio. Nas fotos das mulheres ~peladas~ os genitais costumam estar expostos, e em algumas fotos explícitos ou em pleno ato sexual mesmo. Quando dizemos nua, parece que a coisa muda de figura. Como um nu artístico, por exemplo. Parece não haver uma conotação erótica, o corpo é visto pela beleza de suas formas, seja feminino ou não. O nu tira essa carga sexual da imagem.

Já o despida parece algo digno de uma consulta médica ou uma aula de anatomia. O ato de tirar a roupa é frio e mecânico quando se referem à uma mulher despida. E quando falam que fulana estava sem roupa, parece que ela foi pega fazendo alguma coisa que não devia e estava nua.

Ela está nua, pelada, despida ou sem roupa?

Tudo isso é culpa de quem? Simples. De uma construção social que identifica os corpos para o deleite dos homens e para o deleite das outras pessoas. No deleite dos homens, quase sempre existe a conotação sexual e erótica em cima do corpo da mulher. Ao ver uma mulher nua, ao que parece, boa parte desta conotação despenca. Isso só mostra o poder que as palavras têm ao descrever ou dar intenção a algo ou a alguém. Nas mulheres isso é bem cruel. Gorda, baixa, velha, rodada, puta, tudo isso mostra o poder detonador das palavras e como quem as emprega as usa como meio de dominação.

Muita gente me acha chata por ser feminista declarada, dizendo que eu reclamo de tudo. Reclamo mesmo! Dá nojo de ver algumas coisas que as pessoas fazem e falam. Simone de Beauvoir em seu ótimo livro O Segundo Sexo deixa claro que ao contrário dos outros movimentos de liberdade civil como o dos negros e dos judeus, a mulher não tem como libertar-se da opressão daquele que deveria ser seu igual, mas que a oprime desde a origem da raça humana. Então, desculpem queridinhos, vamos reclamar sim.

E quando aos dois que originaram o post? Na minha opinião são dois pobrezinhos que não percebem que eles precisam seguir um padrão de machão adorador de bucetas para ser aceito na sociedade. Vamos torcer para que caia a ficha um dia.

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