Como me tornei feminista?

Engraçado pensar nisso. Estive me lembrando de onde vem minha aura feminista, se podemos dizer assim, de como me tornei feminista, de como foi esse processo. Garanto que não foi fácil. Você admitir que é uma feminista é como fazer uma confissão, sabendo que você está se livrando de séculos de chorume machista, mas que você será encarada sempre como a chata, que vê machismo em tudo, que quer cortar o barato dos outros.

Mas então… Voltando ao assunto. Comecei a me interessar por bruxaria quando adolescente. Uma amiga e eu compramos livros da Márcia Frazão, onde ela falava de como as religiões patriarcais condenaram milhares de mulheres à fogueira e à obscuridade e em como o universo em equilíbrio do feminino e do masculino foi partido com o advento das religiões, em especial as monoteístas, que possuem seu polo de culto em uma figura de um deus masculino e punitivo. Um deus que poda a livre expressão dos homens para ser cultuado por meio do medo e da opressão feminina. 

Aqueles livros, em especial O Gozo das Feiticeiras, foram muito importantes para mim. Eu tive várias amostras sexistas durante minha educação e crescimento, em especial da parte da minha mãe, mas no geral, eu não tive aquela educação que as meninas costumam ter: quarto e roupas rosas, só bonecas no baú de brinquedos, ter que se comportar como mocinho, etc. e tal. Então eu já tinha uma mentalidade que achava esses comportamentos como uma chatice só. Por muito tempo, inclusive, eu me recusei a usar maquiagem (mesmo achando lindo), vestidos, saias ou seja, me negava a andar como uma ~mulher~. Eu me recusava a acreditar que ser mulher era SÓ aquilo, andar toda no salto, na roupa elegante, de cabelos escovados. Aliás, quando adolescente, tudo o que eu menos queria era ser notada por alguém.

Estes princípios da bruxaria me ensinaram muito. No paganismo, a mulher tem um papel central por conta da ligação com a fertilidade da terra. Mas o homem também tem o seu protagonismo. Sem um ou outro, a ordem das coisas fica incompleta. Os rituais contam com a atuação de ambos. Para a bruxaria, nosso mundo é completamente dual: noite e dia, claro e escuro, terra e ar, água e fogo, homem e mulher. Mas as religiões patriarcais tiraram a mulher da equação, a demonizaram, podaram sua permanência nos polos de culto das novas religiões e colocaram nelas a culpa pelo pecado do mundo – afinal, Eva tentou Adão, né?

O calendário que seguia os ciclos da Terra e da fertilidade – a chamada Roda do Ano – foi substituída por um calendário reto, rígido, que desobedece aos ciclos. Até mesmo a divisão do ano em dois semestres se refere ao masculino (semestre – sêmen). Tanto ele é imperfeito que um dia a mais tem que ser adicionado a cada 4 anos para que o calendário terrestre e o calendário solar voltem a bater (dia bissexto).

Para as religiões patriarcais, as mulheres são o objeto usado pelo diabo para tentar o homem e tirá-lo de seu caminho até deus. Portanto, ela tem que se cobrir, tem que ter pudor, não pode fazer nada que chame a atenção. Acho que nunca teremos uma papisa ou uma muçulmana sendo eleita imã. Nós somos podadas nas religiões, nas ruas, nas relações pessoais. No paganismo, nós temos uma posição de protagonismo, ao lado dos homens.

E aí, você pode se perguntar se eu sou bruxa. Não, não sou. Eu acho que essa filosofia pagã é muito bonita, tornando mulheres e homens seres iguais diante das divindades e da sociedade. Mas o paganismo têm também um histórico cruel de sacrifícios humanos. Ele se tornou essa coisa bonitinha nos dias de hoje. Nada contra de wiccanos ou bruxas, ao contrário. Se eu fosse seguir alguma religião hoje, certamente seria o paganismo. Mas eu fiz muita reflexão a respeito e me sinto muito melhor como ateia do que crente em algo maior do que eu. Na minha concepção, essa equação está equilibrada sem a presença de uma divindade ou de uma entidade, algo superior.

Porém, mesmo não seguindo, eu reconheço a importância que estes livros de bruxaria tiveram em mim. Sem eles, eu demoraria para entender o feminismo. Aliás, eu só tive contato com o feminismo através da internet. Pois antes eu sequer tinha ouvido falar dele. Feminismo parece uma palavra proibida entre os seios familiares, pois você tem que ir até ele. Proibido e discriminado como as mulheres e as bruxas.

Saiba mais sobre Márcia Frazão.

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