Você não precisa ser religioso para ser bom

Aconteceu algo muito bacana hoje. Eu estava no Pão de Açúcar com minha mãe e sem querer trombei com uma senhora usando o uniforme dos varredores de rua. É um uniforme bem chamativo, talvez para própria segurança da mesma. Pedi desculpas, e ainda brinquei que era tanta coisa gostosa na gôndola de doces que a gente nem sabia o que escolher. Mas ela estava com calor. O sol às 15hs estava de doer e ela se refugiu uns instantes dentro do mercado para pegar o ar condicionado.

Enquanto minha mãe parou no caixa para pagar, eu parei na frente do freezer de sorvetes italianos que o mercado têm. E pensei, vou levar um para a senhora da varrição. Está muito quente. Ninguém merece trabalhar embaixo do sol forte sem ao menos um refresco, uma pausa no dia para algo gostoso. Peguei o meu e o dela, passei os dois, e enquanto as compras eram embaladas, eu levei para ela do lado de fora.

“_ Minha flor! Aqui um sorvete pra você se refrescar.”

Eu vi que aquela senhora não tinha um gesto de gentileza em muito tempo. E sorriu com os olhos brilhando, me agradecendo muito pelo gesto. Acho que fiquei mais feliz com ela por vê-la feliz. Voltei para dentro para ajudar minha mãe, enquanto a senhora buscava uma cadeira ao lado de seu carrinho para degustar o sorvete.

Quando saímos, minha mãe parou para conversar com ela e descobriram que eram da mesma igreja. Eu, como sou ateia, fiquei na minha, mas feliz por vê-las entretidas num papo bacana. Minha mãe pediu orações à ela por minha saúde e a senhora não parava de agradecer pelo sorvete. Percebi que mais que pela chance de se refrescar, ela queria conversar com alguém, se sentir um ser humano respeitado. Seu trabalho é vital para a cidade, com certeza, mas antes de tudo era uma senhora beirando os 60 anos, que precisava trabalhar e estava cansada. Uma conversa descontraída na rua e ela sorriu, se animou, se sentiu digna e respeitada.

Foi um dia muito bom. Fiz alguém feliz, extremamente feliz, apenas tendo empatia e respeito pelo outro. Se a sociedade tivesse esses dois sentimentos, praticamente tudo estaria resolvido. As religiões ainda ensinam isso? Até onde me lembro dos ensinamentos da igreja católica – pois estudei em colégio de freiras – o amor ao próximo era um dos alicerces mais primordiais do cristianismo.

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