Friendzone, um conceito que mata

Sempre me incomoda muito quando vejo caras dizendo que estão na friendzone. Pode reparar que muitos caras ditos “nerds”, que se acham super legais, respeitadores, o genro que toda mãe quer, todos eles reclamam que estão na porra da friendzone. Mas o que é esse conceito tão distorcido que se proliferou entre os machos nerds, em que eles se colocam como vítimas de megeras que nunca olham para o quão bonzinhos eles são?

Friendzone é quando um cara trata bem uma mulher, se torna seu amigo, ajuda a amiga quando ela precisa, está sempre por perto para dar o seu ombro, fazem programas de amigos, mas tudo isso por um interesse sexual dele. E muitos reclamam que elas os deixam nessa zona ridícula, cozinhando, enquanto elas se interessam por “cafajestes”. Normalmente se referem à friendzone como um amor platônico; para mim isso é puro egoísmo de homem que acha que mulher deve lhe pagar com amor ou pelo menos com sexo por toda a atenção que elas recebem desse cara “tão legal”.

Um exemplo de como isso é perverso é o caso do atirador de Realengo. Ele se sentia humilhado pelas meninas, que sempre o ignoraram na escola e quando ele voltou, armado e com sede de vingança, quais foram suas principais vítimas? As meninas. Tivemos morte de alguns meninos que tiveram a infelicidade de estarem na sua linha de tiro, mas as vítimas eram, quase que integralmente meninas, com tiros na cabeça, no rosto, no peito, ou seja ele mirou para matar, descontando nelas sua ira e seu desejo não resolvido. Tanto que ele mandou os meninos saírem e deixou as meninas na sala.

 

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Vamos ver agora o que um caso extremo de sentimento de exclusão, típico da friendzone, faz com um indivíduo.

 

Eu tenho 22 anos e ainda sou virgem. Eu nem mesmo beijei uma menina. […] A universidade é o período onde todo mundo experimenta coisas como sexo, diversão e prazer. Mas nesses anos eu tenho apodrecido na solidão. Não é justo. Vocês nunca se sentiram atraídas por mim. Eu não sei por que vocês não se atraem por mim. Mas eu vou punir todas por isso […] Eu vou entrar na sorority house mais gostosa da UCSB e assassinar cada puta loira mimada e metida que eu ver lá dentro. Todas aquelas garotas que eu desejei tanto, todas me rejeitaram e me desprezaram como um homem inferior sempre que eu tentei investir sexualmente nelas [em inglês, if I ever made a sexual advance towards them]. Eu tirarei grande satisfação do massacre de vocês. Vocês finalmente verão que eu sou, na verdade, o superior. O verdadeiro macho alfa. Sim… Depois de eu ter aniquilado cada garota na casa, eu vou sair pelas ruas de Isla Vista e matar cada pessoa que eu enxergar. Todo o pessoal popular que vive uma vida de prazer hedonista…

Este foi o discurso que Elliot Rodger deixou no Youtube, em um vídeo de 7 minutos, reclamando de quão bom moço ele é e como era constantemente ignorando pelas moças da universidade. A solução? Matá-las, claro! O problema não é só a friendzone, óbvio. Um cara desses, assim como o atirador de Realengo tem sérios problemas mentais para chegar às vias de fato e matar indiscriminadamente só porque se sentem rejeitados. Mas não há como negar a questão do gênero de seus crimes e de suas vítimas. Por perceberem que as mulheres não se atraíam por eles, a culpa é delas que não enxergam como eles são bacanas, não deles que são completos otários.

É mais uma forma de culpabilização da vítima. Se ela não o quer, ela que morra, afinal, ela me rejeitou. É também um traço misógino de uma cultura que diz que os homens podem tudo. Que eles devem ter tudo. E também é culpa de uma sociedade que não ensina seus meninos a ouvirem um não. É notável vermos como existem mulheres morrendo nas mãos de ex-companheiros porque tomaram a iniciativa de terminarem um relacionamento que eles não aceitaram bem. Os corpos das mulheres são tidos como suas posses e, portanto, elas não podem ter iniciativa, como terminar um relacionamento que não está funcionando.

Também há outros paralelos entre Elliot e Wellington, o atirador de Realengo. Elliot foi influenciado pelo Men’s Rights Movement, um movimento masculinista norte-americano que prega a superioridade masculina e a afirmação do macho-alfa, o líder, o fodão. São misóginos conhecidos que pregam o subjugo de mulheres diante de sua superioridade, algo bem semelhante ao que um grupo de misóginos brasileiros liderados por Sílvo Koerich pregava. O grupo brasileiro pretendia, inclusive, realizar um ataque à UNB, semelhante aos casos dos Estados Unidos. Eles pregam estupro, inclusive de lésbicas, que eles chamam de “corretivos”, dizem que mulheres acima dos 30 anos estão “passadas” e que o ideal mesmo é pegar as “novinhas” para que elas sejam doutrinadas a servir o macho.

 

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Friendzone é um perigo não para o pobre otário que está reclamando que sua melhor amiga não dá para ele. O real perigo é para as mulheres, pois massacres como este são nitidamente de gênero, destinados a odiar o gênero feminino. E a demência desses caras é tanta que eles não percebem qual é o verdadeiro motivo pelo qual as meninas não se interessam por eles: eles próprios. E reclamam dos “cafajestes”, mas esses “cafas” ao menos demonstram o interesse sexual logo de uma vez, ao invés de ficarem cozinhando e tratando bem uma mulher, achando que ele deve ser servido pela moça que ele trata bem, que não é mais que sua obrigação. Eles adotam essa visão machista tanto com mulheres quanto com homens, separando-os em cafajestes – na versão feminina vadias – e em caras sérios – “mina pra casar”.

O cara na friendzone tem que entender de uma vez que se ele trata bem uma mulher, com respeito, com carinho, dá atenção e faz companhia, ele não faz mais do que sua obrigação em tratar um ser humano bem. Ele deve ser assim com qualquer pessoa, não interessa quais sejam seus sentimentos amorosos sobre isso. Talvez só assim eles entendam que suas amigas não lhes devem nada por esse tratamento, nem sexo, nem um relacionamento. NADA.

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