Gravidez: punição para a mulher que faz sexo ou que é estuprada

cryEssa última sexta-feira saiu uma portaria do Ministério da Saúde que falava sobre o atendimento às vítimas de estupro que queiram e precisem fazer um aborto. O SUS pagará pelo procedimento ao hospital e a vítima de violência sexual não precisa apresentar BO para realizar o procedimento. A portaria nada mais é do que uma garantia que force os hospitais à garantir o atendimento que tem respaldo legal para as mulheres que necessitem dele.

Sabemos bem como é a questão do aborto no país. Repleta de senso comum e sensacionalismo da parte dos anti-mulher – me recuso a chamar essa raça de pró-vida – que acham que retirar um aglomerado de células que está se agarrando ao cólon do útero é o mesmo que cometer um assassinato. A lógica perversa por trás do aborto é que tem quem ache que toda mulher sonha em ser mãe, que todos os métodos contraceptivos são infalíveis e que se a mulher engravidou, foi porque quis.

Pessoas com esse tipo de pensamento estão punindo uma mulher que fez sexo – ou que foi estuprada – com uma gravidez que muitas vezes ela não quer. Dados do Ministério da Saúde mostram que mais da metade de todas as gestações do Brasil são indesejadas, ou seja, não foram planejadas, vieram por acidente. E tem gente vomitando que tudo isso foi porque a mulher que quis. Por que não se protegeu?

Uma gestação não é o mar de rosas que revistas e novelas tentam nos passar. Sabemos que as modificações corporais e a tempestade hormonal que acontece no corpo da mulher podem causar variações de pressão sanguínea, diabetes gestacional, fora toda a violência que a gestante sofre nos consultórios pelo país com maus tratos da parte da equipe ou do próprio obstetra e na própria hora do parto, quando muitas são ofendidas, sofrendo de violência obstétrica.

Não são todas as mulheres que querem parir um filho, não são todas as mulheres que querem ser mães. A sociedade precisa parar de endeusar a maternidade como se fosse a finalidade máxima na vida de toda e qualquer mulher. Precisamos ter direito de escolha sobre nossos corpos, mas o que vemos na realidade é que ele continua sendo pautado por uma sociedade patriarcal que nos viola e nos legisla sem que possamos opinar a respeito. Uma lei assassina como a que impede o aborto por simples decisão da mulher, mas que permite a morte de milhares nas mãos de açougueiros é só uma amostra de como a sociedade encara a mulher que fez sexo e engravidou.

 

Nem toda mulher quer parir um filho.

Nem toda mulher quer parir um filho.

 

Por que, gente, a mulher também gosta de sexo. E sim, uma gravidez por acontecer no encontro entre uma mulher e um homem. Se eles não se preveniram não podemos punir a mulher com um corpo estranho que ela não deseja ter. Sempre vemos como o homem nunca é apontado como um culpado nessa situação. A culpa sempre cai sobre a mulher. Não podemos esquecer também que a mulher que morre de abortos mal feitos é sempre a pobre, aquela que depende de um SUS que não a protege, pois aquela mulher que tem dinheiro pode pagar por um aborto seguro em uma clínica.

Parem de culpar as mulheres pelo sexo que fazem. A portaria do SUS é uma obrigação do Estado para com aquelas que foram violentadas e não querem conviver com o fruto da violência que sofreram. E quem defende que uma mulher deva ser obrigada a manter o fruto de um estupro é tão insensível e mau caráter quanto o próprio abusador.

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