Geração de prematuros

Recentemente, saíram os dados da pesquisa Nascer no Brasil, divulgada pela Fiocruz e pelo Ministério da Saúde, a maior já feita no Brasil. Foram 23894 mil mulheres atendidas em maternidades públicas, privadas ou conveniadas ao SUS. Eles foram coletados em 266 hospitais, em 191 municípios entre fevereiro de 2011 e outubro de 2012. Não surpreende ver que as cesarianas ganham disparado do parto normal. Quase um milhão de mulheres são submetidas às cesarianas sem indicação médica. Ela foi realizada em 52% dos nascimentos, sendo que nos hospitais privados o índice é assustador: 88% dos partos são cirúrgicos. A indicação da Organização Mundial da Saúde é de apenas 15% de cesarianas. Na Holanda, o índice de partos assim é só 10%.

O parto cirúrgico ou cesariana deveria ser indicado apenas para os casos graves em que há risco para a mãe e/ou para o bebê. Mas hoje ele é símbolo de parto marcado, cômodo, aquele em que você marca hora para “parir”. A maioria das entrevistas também alegaram que a primeira opção era pelo parto normal, mas no decorrer da gestação optaram pela cesariana, pois não tiveram apoio pelo primeiro. Muitos obstetras preferem a cirurgia porque é cômodo para ele e também porque o procedimento é mais caro. O valor de uma cirurgia é sempre rateado pela equipe inteira e o cirurgião é quem recebe mais.

Não há justificativas clínicas para um percentual tão elevado no Brasil. Essas cirurgias expõem as mulheres e os bebês a riscos desnecessários e aumentam os gastos com saúde.

Maria do Carmo Leal

Coordenadora do estudo e epidemiologista

Muitas mulheres precisam procurar vários profissionais que as apoiem na decisão de terem um parto normal ou humanizado, às vezes em casa, com a participação de doulas e enfermeiras. O parto deixou de ser um processo natural do corpo feminino para se tornar um caso de saúde pública, onde parece existir uma aura protetora sobre médicos, onde só eles têm a função sagrada de trazer à luz novos seres humanos. Acho que se o parto normal fosse assim tão ruim, a raça humana estaria extinta, pois algo que mata um organismo não é vantajoso do ponto de vista evolutivo.

gravidez

Reparou que fotos de mulheres grávidas nunca têm cabeça? Parece que perdemos toda e qualquer decisão sobre nossos corpos na gravidez…

 O que muitas mulheres ignoram é que uma cirurgia nunca é isenta de riscos. Não existe essa de cirurgia mais segura, menos segura. Cirurgia é cirurgia e ela sempre tem grandes riscos. Além disso, nossa sociedade tem, por hábito, demonizar a dor, como se ela fosse algo mortalmente horrível e, portanto, deva ser evitada a todo e qualquer custo. Eu nunca pari, mas as cólicas menstruais já me mostraram que, apesar de serem bastante incômodas, elas não matam ninguém de dor. O parto normal foi estabelecido como sendo uma coisa abominável, degradante, como se não fosse a ordem natural da coisa.

E eu até entendo essa visão ao ver como as crianças por parto normal muitas vezes nascem. Muitas mães sofrem com violência obstétrica, têm suas pernas amarradas nas camas, são ofendidas e até agredidas pela equipe de enfermagem, sofrem episiotomias desnecessárias e podem desenvolver até depressão pós-parto por conta deste destrato. Só que o problema não é o parto em si e sim o despreparo da equipe de obstetrícia que não sabe tratar bem a mãe, não têm preparo para conduzir o parto e ao invés de estimular a evolução natural de um trabalho de parto, prefere arriscar trazendo bebês ao mundo que ainda não atingiram seu desenvolvimento completo, o que pode gerar problemas de saúde, imunológicos e alérgicos. No Reino Unido, onde o parto natural humanizado – sem a humilhação que as gestantes brasileiras muitas vezes sofrem – as gestantes podem se movimentar, andar, subir escadas, fazer atividades físicas leves que auxiliem no melhor encaixe do bebê, aguardando a melhor hora para o nascimento. O curso natural é seguido, como aconteceu com a Duquesa de Cambridge, Kate Middleton.

Além de toda a questão sobre o risco de uma cirurgia, ainda temos toda uma geração de bebês que estão nascendo antes do tempo. Nenhuma gestação é igual à outra, cada bebê tem seu ritmo e essa epidemia de cesarianas pode afetar o desenvolvimento dessas crianças no futuro. Parte significativa do fortalecimento da criança acontece nas últimas semanas, como preparar a pele para o ambiente externo, expandir os pulmões. Se muitas mães estão sofrendo violência obstétrica, sair do útero antes da hora é também uma violência com o bebê. Fica bem claro que um ato biológico acabou se tornando um ato cirúrgico e hospitalizado, desrespeitando desejos da mãe e desenvolvimento dos bebês.

E como se não bastassem esses dados alarmantes, você é obrigada a ler toda a sorte de merdas antipetistas em portais de notícias, dizendo que parto humanizado é coisa de esquerda. Que as cesarianas estão salvando vidas e que o PT é quem quer alterar a rotina dos hospitais. PORRA!!!! Não é possível! Cesarianas podem salvar vidas? Lógico que podem! Em caso de risco sério à vida da mãe e/ou do bebê, é óbvio que este é o procedimento indicado, mas fora isso não há motivo para cair na faca por medo de um processo natural do corpo. E também não há motivo para um imbecil disparar comentários tentando deslegitimar o PT. Isso está virando paranoia! Isto está virando burrice generalizada, papagaísmo generalizado! Isso já deu! O Brasil não foi descoberto em 2002, foi descoberto há 500 anos. Temos toda uma sequência de governos horríveis, mas culpar um partido é um escape fácil para qualquer preguiçoso mental que não sabe buscar informação.

E só espero que o cenário inverta e que as mulheres possam ter o melhor atendimento pré-natal possível e que cenas de mães sendo escoltadas pela polícia para terem seus filhos nunca mais se repitam. Criança deve vir ao mundo cercada de amor, não de dor ou de médicos mercenários.

 

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