Não use ESTUPRO como sinônimo para algo legal

O título é estranho, mas não sabia como colocar minha indignação para abrir este post. Eu já venho reparado que muita gente, mas muita gente tem uma visão distorcida do que é estupro e faz brincadeira com o termo, com quem tenta combater o estupro e que tem gente que também utiliza a palavra como sinônimo para algo intenso, amplo, bacana. Parece estranho, não é mesmo? Mas já vi muita gente usar a palavra ESTUPRO como algo positivo (do ponto de vista delas) e isso me deixou extremamente incomodada.

“Nossa, eu li O Senhor dos Anéis e foi um estupro, cara. Li de uma vez só, nem larguei”.

“Esse foi o primeiro celular em que eu praticamente estuprei ele, usei todas as funções que ele tem”.

Estes são apenas dois exemplos de como existe uma visão distorcida sobre o que é estupro e sobre sua aplicação numa frase. Além da ignorância mesmo, existe um desconhecimento do que é essa palavra, do que ela causa e porque não há meios de utilizá-la num contexto positivo. E vejo que muita gente desconhece e aplica a palavra em seu contexto diário. E também não vejo nada sendo feito para mudar isso, como por exemplo feministas indo às escolas, fazendo palestras, encontros, workshops em faculdades.

Então, de acordo com o Wikipedia, um recurso que poderia ser amplamente utilizado pela população e não é:

Estupro ou violação é a prática não-consensual do sexo, imposto por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza por ambos os sexos. Ele consiste em uma penetração da vagina ou do ânus de uma ou mais vítimas (ou no sentido mais amplo também da boca) por um ou mais indivíduos. Os indivíduos podem ser homens, mulheres ou animais treinados para estupros. Também se trata de estupro, se os indivíduos enfiam objetos em suas vítimas.

Uma pessoa teve o corpo violado sexualmente seja por quantos parceiros for, seja pelo instrumento que for, é considerado um estupro. Ele pode acontecer com mulheres, homens e crianças, mas a maioria absoluta das vítimas se constitui de mulheres jovens, adolescentes e meninas, que costumam sofrer violência sexual de membros da família, conhecidos, amigos, namorados e companheiros. E como se não bastasse existir este crime, existe também uma cultura que permeia a sociedade há muito tempo que diz que a vítima contribuiu para seu estupro através de roupas curtas e decotadas, por estar na rua até tarde, por estar bêbada, numa festa, na balada, enfim, vivendo sua vida. Essa é a chamada CULTURA DO ESTUPRO e, infelizmente, todas as mulheres sofrem com ela, apesar de muito macho recalcado dizer que ela não existe.

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Não costumo ver mulheres utilizando ESTUPRO como algo positivo, são os homens mesmo que utilizam do termo em seu cotidiano. Isso porque, para eles, o estupro não é uma ameaça real. Talvez para quem é presidiário, o estupro seja sim uma ameaça constante e até uma forma de punição contra pedófilos e estupradores, mas no mundo de fora dos muros da cadeia, as mulheres, meninas, adolescentes são predadas e a violência sexual que sofrem são sempre relativizadas para que achem um jeito de culpá-las pelo crime.

Quando um homem se utiliza do termo ESTUPRO para algo positivo, ele está relativizando o crime, a dor que ele causa e o medo que a palavra causa em qualquer mulher. Ele não anda na rua com medo de estupros, ele não se preocupa com a roupa que usa com medo de isso servir para justificar a violência sexual sofrida. Utilizar ESTUPRO como algo positivo é ainda pior, pois isso mostra que ele não compreende o que está dizendo e não se preocupa nem um pouco com os abalos que isso causa.

Pior ainda é utilizar campanhas como o Não Mereço Ser Estuprada como motivo de chacota, de piada e ver homens dizendo que estuprariam na boa uma mulher dessas para mostrar à ela que ~estupro é algo divertido~. Ontem mesmo denunciei uma página no Facebook que convida para um Estupro Coletivo contra as mulheres da campanha. Ou seja… tem empatia alguma por qualquer pessoa um verme que cria um evento desse? Aí quando a polícia cai em cima destes vermes, eles dizem “mas era brincadeira”.

Não se brinca com tudo. Não se pode falar de certos assuntos com humor porque nem tudo é engraçado. Quer fazer piada de estupro? Faça uma em que o estuprador se fode. Isso sim seria um serviço (viu Rafinha Bastos?, ou devo chamar de Cafinha Bastos??).


Sabia que você faz parte da cultura do estupro?

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