O feminismo me salvou

É verdade. Acredito sim que o feminismo tenha me salvado. Ele me tirou do poço do obscurantismo de uma sociedade que eu sou inferior só por ter vagina e útero. Essa sociedade também é tão estranha que mulheres que não possuem vagina e útero também são escorraçadas do ~padrão social~. Eu sobrevivi por muitos anos à margem, achando que meu estupro tinha sido culpa minha ou que os abusos que sofri aos 8 e 9 anos também tinham sido culpa minha. Ninguém merece conviver com uma culpa por anos, pois ela corrói. Ela nos mata aos poucos. Por isso, eu digo, o feminismo me salvou.  

pin upAcho que minha mãe me criou sem tanta neura quanto a ser mulher como muitas das minhas amigas. Claro, sempre tinha cobranças baseadas em tabus comuns às mulheres como não lavar a cabeça menstruada e coisas assim. Eram tantos medos impostos, espero que eles tenham caído hoje em dia com tanto acesso à informação. Livros de bruxaria e paganismo também abriram minha mente para muita coisa como a opressão de sociedades patriarcais sobre as minorias e acho que foi aí que comecei a me sentir feminista, apesar de desconhecer completamente o termo.

Fiz muita coisa, porém, coagida e impulsionada por ditames machistas, como ofender amigas, falar que “mulher tem que se dar o respeito”, que “mulher tem que se valorizar” e só depois de frequentar mais a internet – uma das coisas positivas de ficar doente foi me dar essa possibilidade – é que pude conhecer blogs como o da Lola (apesar de achar que ela mudou muito de uns tempos pra cá), as Blogueiras Feministas, Aline Valek, Blogueiras Negras, Nádia Lapa, entre tantas outras mulheres fantásticas que com seus textos, seu trabalho praticamente gratuito para levar uma palavra de conforto para milhões de mulheres, para abrir os olhos de milhares de homens, é que comecei a entender que eu era sim uma feminista.

Mas até aí, entre perceber e admitir, demorou. Eu preferia esconder que era feminista, ficar quietinha no meu canto, mas depois percebi que esse processo de aceitação é natural já que vivemos em um mundo que condena tudo o que é feminino e que não seja voltado para o prazer masculino. Uma mulher que não quer se depilar, que não quer usar salto alto, que não pinta o cabelo ou as unhas, no mínimo é uma aberração para aqueles que acham que a única função do corpo feminino é agradar ao outro.

Quando era adolescente, eu fazia parte da galera heavy metal da turma. Andava de preto, tênis preto e odiava tudo o que remetesse às meninas bonitas e maquiadas da minha turma. Eu achava que não precisava daquilo para ser mulher. Eu as chamava de fúteis e vivia imersa na música pesada para abafar o nhenhenhem delas. Depois, bem depois, já adulta, na faculdade, percebi que eu podia ser o que eu quisesse. Mas ainda tinha medo. Passei por situações machistas na faculdade e ficava me culpando por ter deixado isso ou aquilo acontecer.

Ser mulher, muitas vezes, é viver com culpa. Uma culpa que você não quer, mas que aceitou engolir por achar que o mundo é assim mesmo. Não, o mundo não pode ser assim, punitivo e castrador. Ele não pode permitir que mulheres se calem apenas para que uma classe opressora se mantenha no poder. Quanto sangue ainda precisa ser derramado para que as mulheres possam ser consideradas gente de verdade? Por quanto tempo nossos gostos serão relativizados e rebaixados? Isso não pode mais acontecer.

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Assim como o feminismo me salvou, espero que continue salvando outras pessoas. Homens e mulheres. É hipocrisia de algumas feministas endeusar as mulheres e demonizar todos os homens como se caráter fosse algo dependente, exclusivamente, de gênero. Ou esse trabalho é feito em conjunto ou ninguém sairá vencedor disso. Aliás, os dois devem vencer ao ganhar um mundo mais igual. Eu sei que isso não acontecerá enquanto ainda estiver viva, mas sei o que o feminismo fez por mim e lhe sou muito grata.


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