Sociedade genitalizada

Tenho visto muita coisa estranha dentro do feminismo ultimamente. A coisa mais estranha é o fenômeno TERF. TERF significa Trans-Exclusive Radical Feminist. Ela se dizem feministas, consideram qualquer ser humano dotado de um pênis um potencial estuprador e, portanto, mulheres trans* são chamadas por elas de XY, e que, portanto, a identidade de gênero da pessoa estaria ligada ESSENCIALMENTE ao seu órgão genital e sexual.

Vi recentemente uma discussão lamentável em que duas TERFs escorraçaram uma mulher trans*. A chamaram de XY, de macho, de pirocudo e a mandou “vazar” de seu espaço, pois homem “não presta” e se são dotados de pênis, são potenciais estupradores. É tanta falha de pensamento e de caráter afirmar tamanha MERDA que eu fico enojada de ver essas mulheres se assumindo feministas e tenho vergonha de me chamar de feminista.

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A nossa sociedade já sobrevaloriza os genitais e as partes íntimas das pessoas. E faz isso voltado sempre para o sexo, para o prazer – em geral masculino. Digo masculino porque você dificilmente vê material erótico produzido para mulheres. Até mesmo as revistas com nudez masculina são voltadas para um público masculino que é gay. Sabemos dessa sociedade genitalizada apenas olhando o escândalo que fizeram com mães que amamentaram seus filhos em locais públicos. Elas foram expulsas dos locais ou recomendaram que elas amamentassem no banheiro. Você come num banheiro?

Mas no carnaval vemos os corpos desnudos, seios e vaginas aparecendo na televisão. Ou seja, no carnaval pode, mas uma mãe amamentando é nojento? Pensamos tanto no genitais – em especial os masculinos – que os usamos como palavrão ou como expressão de surpresa: Caralho! Cacete, hein?! Mas é um escroto mesmo! Ô buceta, viu?? (uso muito esse último). Mas mesmo assim a sociedade brasileira é extremamente tacanha quando o assunto é sexo. Todos agem como se soubessem de tudo. E mulher não pode gostar de sexo, se gostar, tem que fazer só com o noivo, marido ou namorado, e ainda assim não pode dar de quatro.

Muito me espanta e entristece ver que mulheres estão agredindo verbalmente e ofendendo mulheres trans*, dizendo que são os genitais os definidores do gênero de uma pessoa. E o pior da discussão toda, é que a tal feminista era uma feminista tida como diagonal, ou seja, que abrange vários grupos oprimidos pelo patriarcado. E sei que homens podem fazer parte desse grupo também, tanto que fazem.

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Mulheres, sejam cis, sejam trans*, já são oprimidas pelo patriarcado. Existe uma preocupação com os genitais, em especial das mulhereS trans*, onde sua privacidade é invadida por pessoas querendo saber em que banheiro elas devem ir quando precisarem. Vejo mulheres trans* sendo escorraçadas por transfóbicas apenas porque nasceram com o corpo errado e praticando transfobia e misandria fanática sobre elas por causa disso. Já não vivemos o suficiente num mundo que sobrevaloriza os genitais para ter que impôr tamanha carga negativa sobre as outras? Nós já temos que preencher nosso sexo em fichas e cadastros o tempo todo, isso é tão relevante assim?

Espero que chegue um momento no futuro onde isso não seja mais necessário. E que as pessoas possam exercer seus gêneros e sexualidades em paz. Mas esse dia vai demorar a chegar. Duvido que aconteça na minha geração. Ou na próxima. E muita gente ainda vai se ferir por isso, por gente ignorante que nivela para baixo qualquer um que tenha pênis. Não é porque a pessoa possui um pênis que ela ficará com um desejo louco de estuprar alguém. É insano, é nojento, é desonesto dizer isso. Mas tem sim feministas fazendo isso. Portanto, cuidado. Verifique bem o discurso de alguém para medir até que ponto ela é feminista mesmo ou apenas uma pessoa cretina – porque cretinice independe de gênero – destilando ódio por aí.


Transfobia

TERF

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