Instinto materno não existe

Taí outra frase que sempre que é proferida gera olhares de indignação da parte das pessoas. Como assim instinto materno não existe?? Como que alguém, em sã consciência, pode alegar que o instinto de uma mãe para cuidar de sua prole não existe?? Que tipo de feminazi abortista sem coração são essas feministas ocultistas que querem derrubar o princípio mais fundamental da raça humana?

É, gente, sinto informar que esse instinto não existe. Mas com isso não estou dizendo que o amor por um filho ou filha não exista. Apenas estou afirmando que esse instinto sobrenatural que dizem existir em qualquer mulher e que todas nós queremos parir um filho não existe. Assim como um instinto paterno não existe. Tudo isso é uma construção social, assim como o gênero. Ele acabou instituído na sociedade de tal forma que agora ninguém contesta, mas deveria.

Basta ver quantos casos de infanticídio nós vemos nos jornais. Claro que não são tão comuns, no entanto eles existem. Mães e pais que matam os filhos, mães e pais que simulam doenças nos filhos para conseguir a simpatia das pessoas. Este comportamento tão antinatural se chama Síndrome de Münchausen e já foi vista em hospitais onde mães chegavam a sufocar seus filhos a ponto de desacordá-los e assim acionar as equipes de enfermagem. Quer coisa mais triste que uma mãe que está com seu filho doente no hospital?

instinto materno

Lembro até hoje de um episódio de Lei e Ordem, a série original, em que um bebê sumiu. Acreditaram que o pai fosse o culpado e ele indicou o lugar onde enterrou o corpo do filho. Na verdade, ele agiu por pânico, pois era o terceiro bebê que ele e sua esposa tinham que acabava morto e ela estava grávida de novo. Ela tinha tentado a mesma coisa com uma criança que pretendiam adotar e tentaria de novo com o filho. A promotoria conseguiu provar que ela tinha problemas psiquiátricos e a mandou para a prisão, pedindo que ela passasse por uma ligadura de tubas uterinas assim que o filho nascesse e que a guarda dele ficasse com o pai. Foi uma medida polêmica, mas foi um jeito de impedir que mais crianças pudessem sofrer nas mãos dela.

Lembro também de um caso famoso dos anos 90, nos Estados Unidos, em que uma mãe afogou seus cinco filhos pequenos na banheira, ligou para o marido – que trabalhava na NASA – e pediu que ele voltasse para casa, pois tinha matado os filhos. Quando ele chegou, encontrou as crianças enroladas em toalhas, mortas, sobre a cama, uma ainda na banheira. Ela foi diagnosticada com depressão pós-parto depois do nascimento do quinto filho e mandada para a prisão.

Se o instinto materno realmente existisse, você acha que Isabela Nardoni teria apanhado da madrasta e jogada pela janela? Se esse sentimento puro e amoroso existisse no ser humano, se fosse inerente à nossa natureza, tantas crianças teriam sido mortas de maneiras totalmente perversas? Li em algum lugar, uma página ou livro sobre o Antigo Egito, que dizia que pais que matassem seus filhos seriam obrigados a carregar os cadáveres deles por 30 dias.

Dizer que o instinto materno é algo inerente a nós é aprisionar as mulheres em uma maternidade que, muitas vezes, elas não querem. Nem todo mundo quer parir um filho. Nem todo mundo quer ser mãe e pai. Nem todo mundo tem condições de ter filhos, seja financeira, seja psicológica, seja fisicamente. As mulheres, aos poucos, têm percebido que ser mãe não é um fim, não é algo que todas nós devemos seguir. Maternidade é e sempre deve ser uma OPÇÃO.

Lembro que discuti isso com a minha mãe outro dia. Como toda mulher que já passou dos 30 e está solteira, eu sofro um pouco com essa pressão social. Minhas amigas de longa data são todas mães, estou cercada de mulheres que são mães e, portanto, eu sou o “objeto estranho” nessa sopa. E fui categórica em afirmar: eu quero ser MÃE, mas não quero parir um filho. Sei que meu corpo não tem condições físicas de sustentar uma gravidez e não quero passar pelos estágios da gravidez, nem sofrer com todos os efeitos que ela causa no corpo. Não quero correr o risco de ter complicações na coluna por causa do peso extra que, certamente, me fará muito mal em uma coluna que já sofreu três intervenções cirúrgicas.

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Mas eu tenho um amor muito grande dentro de mim que gostaria sim de dividir tanto com um companheiro quanto com uma criança que também precise de amor. Seja negra, branca, parda, bebê ou criança, eu adotaria sim uma criança e seria mãe dela. Eu tenho esse amor, esse “querer cuidar” de alguém, que eu tenho por qualquer pessoa que amo. E não confundo isso com instinto materno. Pode ter sido da minha criação? Sim, pode. Eu sou filha única, não tive contato com crianças pequenas ou irmãos. Minha mãe sempre me criou para ser independente, tanto que aos 7 anos de idade, na 1ª série, eu vestia meu uniforme, almoçava, trancava a casa com minha chave e pegava a perua para ir para o colégio, enquanto minha mãe trabalhava. Tem gente que não acredita nisso, mas é verdade. Eu me viro desde os 7 anos e muito bem. E nunca quis, efetivamente, parir um filho.

Percebo que, muitas vezes, as mulheres que querem desesperadamente ser mães foram aquelas que já desde muito pequena tiveram contato com crianças pequenas, muitas vezes criando seus irmãos. À elas acabou sendo condicionado uma responsabilidade materna que não lhes cabia, justamente porque suas mães precisavam trabalhar ou tinham muitos filhos e tiveram que dividir a responsabilidade com seus filhos maiores. Também percebo que, como houve uma inserção maior de mulheres no mercado de trabalho e elas estão estudando mais, a maioria das mulheres adultas está empurrando a maternidade para depois dos 30 ou até depois dos 40. Algumas até mesmo desistindo deste “projeto”. Minha orientadora teve filhos com 37 anos.

Quando uma mulher diz que não quer ter filhos ou não quer parir um, as pessoas, em geral, associam isso a um comportamento egoísta, desinteressado, como se a mulher fosse desinteressada e individualista. E aquela que quer ser mãe, às vezes a qualquer custo, é vista como uma pessoa altruísta, bondosa e amorosa. Gente, isso é tão errado que nem dá para começar. Não podemos condenar mulheres que não querem seguir a carreira de parideiras ou mães a um destino que elas não querem. E todos nós conhecemos alguém que a gente sabe que nunca deveria ter tido filhos. Eu trabalhei em uma creche da prefeitura por quase dois anos e afirmo: muitas mulheres ali não tinham o menor amor por seus filhos. Faziam no automático.

Apenas gostaria que as mulheres refletissem sobre seus desejos de maternidade. Ele é genuíno? Ele é seu? Ou é uma imposição da família e da sociedade? Se for, ótimo. Espero que você consiga, que tenha uma ótima gestação e seja uma excelente mãe. Mas as mulheres que não querem parir nem querem ser mães não podem ser acusadas e ofendidas, ou estigmatizadas por uma decisão que só compete à elas.


Mito do instinto materno gera culpa em mulher que não quer ter filhos

Mulher sem filhos

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Um comentário sobre “Instinto materno não existe

  1. Tenho uma ressalva em relação ao seu texto: sou a mais velha de cinco filhxs, ajudei a criar minhas irmãs e irmãos e nem por isso eu quero desesperadamente ter filhos. Aliás, nem sei se o quero. Eu vejo justamente o contrário: parece que ao meu redor quem teve muito contato com crianças é quem justamente entende o trabalho envolvido na criação de um filho(a), e pensa duas vezes antes de ter um. No mais, bom texto.

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