Detida por estar na rua

Os imbecis da internet adoram dizer que racismo, misoginia, homofobia, nada disso existe, porque na verdade é esse povo que está se vitimando. E claro, quem normalmente solta essas merdas não é nem negro, nem mulher, nem gay, é em geral o homem branco cis hetero, muito bem colocado no jogo da vida, que acha que pode cagar pela boca na hora de falar o que as outras pessoas sofrem na pele. 

Pois bem. Vamos fazer um exercício bem básico: você está à vontade na rua, de shorts, camiseta, parada na calçada falando com seu pai ao celular e demonstrando carinho com seu marido. Você vê a polícia se aproximando e, para evitar atrapalhar alguma ação policial, você se afasta. Então dois policiais se aproximam de você, te algemam, querendo que você admita que fez algo errado, enquanto você chora no banco de trás da viatura.

Parece surreal, não é mesmo?? Mas isso aconteceu com a atriz Daniele Watts, a Coco de Django Livre, filme de Quentin Tarantino. A atriz estava na rua falando ao celular com seu pai, quando dois policiais de Studio City, Califórnia, se aproximaram e a algemaram. Acusação: prostituição. Ela estava com seu marido na rua, enquanto falava ao celular, e os policiais acharam que por ser um casal inter-racial – ele é branco – ela na verdade era uma prostituta e estava prestando um serviço a ele.

Atriz chora na rua, algemada por dois policiais, sem ter feito nada errado.

Atriz chora na rua, algemada por dois policiais, sem ter feito nada errado.

As fotos foram tiradas pelo marido de Daniele e colocadas no perfil dele no Facebook. E em seu perfil, Daniele escreveu:

Hoje eu fui algemada e detida por dois policiais do Departamento de Polícia de Studio City depois de me recusar a concordar que tinha feito algo errado, mostrando afeto, completamente vestida, em um lugar público. Quando o policial chegou, eu estava de pé, na calçada, perto de uma árvore. Eu estava conversando com meu pai no meu celular. E sabia que não tinha feito nada de errado, que eu não estava prejudicando ninguém, então me afastei.

Poucos minutos depois, ainda estava conversando com o meu pai quando outros dois policiais me abordaram e me forçaram as algemas. Enquanto estava sentada no banco traseiro do carro da polícia, lembrei-me das inúmeras vezes em que meu pai chegou em casa frustrado ou humilhado pelos policiais sendo que ele nada tinha feito de errado. Eu senti sua vergonha, sua ira, e os meus próprios sentimentos de frustração por existir em um mundo onde eu me permiti acreditar que “figuras de autoridade” poderiam controlar existência … a minha capacidade de existir!!!!!!!

Estava sentada no banco traseiro, cheia de adrenalina, meu pulso sangrando de dor, e ocorreu-me que, mesmo lá, eu ainda tinha poder sobre meu espírito. Esses policiais não poderia me impedir de me expressar. Eles não podiam parar as lágrimas catárticas e a raiva que fluía para fora de mim. Eles não podiam me forçar a me sentir mal sobre mim mesma. Sim, eles tinham o controle sobre o meu corpo físico, mas não sobre minhas emoções. Meus sentimentos. Meu espírito estava, e ainda está livre.

Vou continuar a encarar qualquer “figura de autoridade” nos olhos sem medo. Nenhum policial OU OFICIAL DO GOVERNO é mais poderoso do que eu. SOMOS IGUAIS. Eu sei que vou ser sempre livre porque essa é a natureza do meu espírito.

E além disso, apreciei profundamente poder me conectar com os policiais que me detiveram. Me permiti ser honesta sobre minha raiva, frustração e raiva enquanto lágrimas escorriam dos meus olhos. As lágrimas que eu choro por um país que se chama de “a terra dos livres e lar dos valentes” e ainda detém pessoas por exercerem seus direitos.

Hoje eu existo com coragem, sabendo que fui abençoada por ter experimentado o que eu fiz hoje. Todos esses sentimentos, não importa o quão desconfortável foi. Estes sentimentos são o que constrói a minha força interna, minha capacidade de crescer através de tudo o que pode acontecer comigo.

Meu conhecimento pessoal é o que me guia neste mundo. Não é a lei, nem o medo, nem a desconfiança do governo ou policiais ou de qualquer outra coisa. Neste momento há uma pequena voz sussurrando para mim. Ela diz: Você é o amor. Você é livre. Você é pura.

Agora eu pergunto: se Daniele fosse branca e estivesse andando com seu marido na rua, demonstrando afeto, falando ao celular, de shorts e camiseta, ela teria sido algemada e colocada no banco de trás de uma viatura, acusada de prostituição? Se o racismo não existe e é tudo coisa de negro de que se vitimiza, como explicar o que aconteceu com ela? Quem vai ser o canalha hipócrita de apontar que os policiais fizeram seu trabalho sem olhar para a cor de Daniele e depois olhar para a cor do marido, supondo que ele era seu cliente?

Quem será o babaca hipócrita que diz que racismo não existe, mas é capaz de ir para as redes sociais ofender a moça negra que postou a foto com seu namorado branco? Quem vai dizer que branco também sofre racismo? Não foi o marido que foi preso acusado de ser michê, foi? Não, foi a moça negra, vista como um ser inferior, que só pode ganhar a vida trocando dinheiro por sexo na Califórnia. Que por estar na rua, demonstrando afeto para com o marido, foi associada à prostituição.

daniele watts 2

Daniele Watts.

Enquanto mulher branca, cis, hetero, eu não tenho a menor competência para dizer que entendo de racismo. Eu não sofro racismo, eu não posso dizer o quão devastador isso é, o quão repugnante e degradante isso é e que tipo de marca indelével isso deixou na atriz. Mas eu posso sim me indignar e dizer PAREM COM ESSA DESONESTIDADE INTELECTUAL DE QUERER DITAR O QUE É RACISMO, QUEM SOFRE OU COMO LUTAR CONTRA ELE. Calem a boca e ouçam o que os negros têm a dizer, leiam seus textos, compartilhem para que aquele seu amigo no Facebook que adora contar piada de preto possa ler. Mas não diga que racismo ou misoginia não existem. O que aconteceu com a atriz foi o que? Puro engano da polícia? MEU CU. Isso foi sim um ato racista e machista.


Actress Danièle Watts Wrongfully Detained After Being Mistaken for a Prostitute

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