O mundo que odeia as mulheres

Quando as feministas falam isso, muita gente ri da nossa cara. Parece um absurdo, não é mesmo? Com tanta mulher por aí, aparecendo nos outdoors, nas revistas, no culto ao corpo da mulher, nos furacões com nomes femininos, tudo parece idílico, maravilhoso. Nunca houve uma época tão boa para ser mulher, certo? 

ERRADO. Com um pouco de atenção a gente percebe que o mundo odeia as mulheres. Bem no estilo livro de Stieg Larsson, o mundo de fato odeia as mulheres, repudia tudo o que é feminino e até a tão consagrada maternidade acaba sendo combatida por um sistema que não visa nada além de lucro, ao invés de bem estar. É um mundo voltado para dizer às mulheres que seria melhor que elas não existissem.

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Mas como assim, não existir? Se a gente está vivo é porque existimos, certo? Pois é, isso nos torna prisioneiras em um mundo que nos odeia e acaba condicionando comportamentos para que possamos sobrevive nele. Em seu livro A Sujeição das Mulheres, Stuar Mill analisa as relações de poder que subjugam as mulheres desde sempre. Nesta resenha (problemática a meu ver, lá no finalzinho), diz assim:

O primeiro capítulo do livro é dedicado à defesa da ideia de que a sujeição das mulheres aos homens é arbitrária. Antes de esta sujeição ser estabelecida, não foi dado às mulheres o benefício da dúvida. Foi-lhes negado o direito de exercer as mesmas funções que os homens, de modo a testar a eficácia dos papéis sociais, o que permitiria talvez concluir que a submissão feminina traria maior benefício a ambos. As razões para o estabelecimento de tal costume nem mesmo foram discutidas e ponderadas. Prevaleceu a lei do mais forte e o sexo mais forte fisicamente, o masculino, subjugou o mais fraco, o feminino, exigindo a sua devoção e afeição.

O negrito é meu. Ou seja, nos foi dada essa vida, sem ao menos nos perguntarem se era isso o que a gente queria. E claro, quem é que quer continuar vivendo um mundo que nos odeia? Apenas os homens que se mantém no poder, sem dividir com ninguém e que acreditam que esta divisão é coerente, que é assim que o mundo anda e acabou. Mas não é assim que o mundo deve andar. E quando o feminismo bate nessas teclas, somos acusadas de sermos histéricas, mal comidas, peludas, vagabas e por aí vai.

Recentemente, nos Estados Unidos, os direitos reprodutivos das mulheres ganharam uma séria ameaça. A Suprema Corte decidiu que as crenças religiosas dos empresários os eximem de custear anticoncepcionais para suas funcionárias dentro do seguro médico. Ou seja, por causa da religião de um homem branco cis hetero caduco as mulheres não poderão contar com o uso do anticoncepcional dentro do próprio seguro médico. É como eu te impedir de comer uma fatia de bolo de chocolate porque eu estou fazendo regime.

A tal reforma, uma das vitórias do governo de Barack Obama, estipula que quase todas as empresas com mais de 50 funcionários devem incluir no seguro médico o subsídio para anticoncepcionais. O que a Suprema Corte, também caduca, dos Estados Unidos está esquecendo é que a pílula não serve apenas para evitar gravidez. Muitas mulheres com endometriose fazem uso dela para suspender a menstruação, ou usam para regular o fluxo, ou para regular o crescimento de miomas. Ou seja, existe toda uma gama de problemas a serem considerados antes de dizer que sua religião não permite o uso de um medicamento. É algo como “eu não tenho enxaquecas, então vou pedir para o governo a suspensão da venda de aspirinas”.

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Isso faz lembrar da fala do diretor executivo da UNFPA (Fundo das Nações Unidas para População):

(…) me parece que o mercado de trabalho pune as mulheres por garantirem a continuidade da vida.

As aberrações não param por aí. Acho que todo mundo soube da empresa brasileira de telemarketing que fez uma escala de gravidez, dando prioridade para quem fosse casada e sem filhos. Eu, mulher solteira, se decidisse ter um filho, simplesmente não teria direito, teria que esperar a minha vez. Corpo da mulher é algo que é medido, avaliado, violado, vendido e objetificado e quando levantamos a voz para dizer que esse sistema está errado, somos agredidas.

Um mundo que odeia as mulheres não chamaria Jennifer Lawrence de vagabunda apenas por fazer sexo e querer registrar sua intimidade. Um mundo que não odeia as mulheres não culparia uma vítima de estupro por estar tal hora na rua, por usar tal roupa, por estar bêbada. Um mundo que não odeia as mulheres não deixaria um misógino livre, respondendo a uma tentativa de feminicídio em liberdade, enquanto sua vítima, arremessada de uma varanda, precisa viver trancada em casa para não cruzar com ele na rua.

Uma sociedade que não odeia suas mulheres não jogaria ácido em seus rostos por não querer usar o hijab, por querer casar com quem quiser, ou mutilaria seu genital para extirpar o clitóris. Um mundo doente é isso, um mundo que odeia aquilo que não é padronizado pela sociedade patriarcal. Um negro que não abaixa a cabeça depois de um ato racista é visto como vítima. Um gay que não se intimida e anda de mãos dadas com seu companheiro pela rua é visto com um “viado que quer aparecer”. Uma mulher que não se conforma com sua posição subalterna é vista como histérica e morta simplesmente por ser mulher.

Arte de Arantza Sestayo.

Arte de Arantza Sestayo.

Não se engane, esse mundo odeia as mulheres. Odeia os negros, os gays, as lésbicas, as trans* e tudo mais que não se encaixa no mundo branco hetero cisgênero. O mundo é misógino e isso não nos ajuda.


Supremo dos EUA apoia objeção religiosa de empresas contra anticoncepcionais

A Sujeição das Mulheres, por Stuart Mill

UNFPA Brasil

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Um comentário sobre “O mundo que odeia as mulheres

  1. São inúmeras as maneiras com que o mundo demonstra seu ódio e desprezo para com as mulheres e tudo quanto seja feminino. Incrível são pessoas com um mínimo de conhecimento não se darem conta disso! Caramba, até meu avô, um homem cego de mais de 90 anos, criado no interior de Sergipe era capaz de perceber que algo estava errado com esse mundo quando me aconselhou a ajudar minha mãe a lavar os pratos “porque isso não iria fazer meu pinto cair”. Essas foram suas exatas palavras ditas a mim e a meu irmão quando tínhamos sete e seis anos de idade. Apesar de machista (sim meu avô era machista em muitos aspectos) ele conseguiu raciocinar que uma atividade culturalmente ligada ao universo feminino poderia sim ser praticada por homens sem nenhum prejuízo a sua dita masculinidade. Meu avô! Um homem praticamente sem instrução. Então quando vejo pessoas que se afirmam instruídas, com graus de bacharéis, mestres e doutores cegos diante de tanta misoginia, de tanto ódio a tudo quanto seja feminino fico extremamente decepcionado com o tipo de pessoas que temos nessa sociedade dita informada.
    Lavei muito prato pra minha querida mãe e sempre soube respeita-la pela mulher incrível que ela é e sempre foi e será.

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