O que acontece quando você se descobre feminista?

Descobrir-se feminista é um exercício que não é muito fácil para muitas pessoas. Para algumas é simplesmente impossível, pois é preciso ter exercitado muita empatia para se afirmar como feminista e poucos sabem, podem ou querem fazer isso. Já para outras pode ser mais fácil, ou menos difícil, apesar de ser também um exercício. 

Eu me rotulei como feminista há pouco tempo. Mas sempre carreguei comigo aquele sentimento firme de achar que o mundo não era justo com as mulheres. Nem comigo. Sempre me sentia mal quando ficava com um boy, mesmo morrendo de tesão, porque achava que aquilo era coisa de “vadia”. Cheguei a falar que eu “não era como a tuas nega”, já falei vários tipos de bobagens machistas que existem. E é difícil fazer isso ainda nos dias de hoje, pois a gente tem que lutar contra uma cultura inteira que nos formatou para sermos assim.

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A internet me ajudou muito. Ela me fez descobrir que aquele sentimento de injustiça que eu sentia quando me tratavam com paternalismo, quando me diminuíam, quando não pensavam no meu prazer ou quando me usavam e me jogavam fora tinha nome, tinha uma identidade. Era o sistema patriarcal me tratando como uma coisa não-humana, uma coisa sem direitos, sem respeito, uma coisa que ~devia~ atender aos desejos deste sistema patriarcal.

E descobrir-se feminista, num primeiro momento, é uma alegria e um alívio por pensar “ufa, não estou só, existem outras mulheres por aí com a mesma percepção, a mesma sensação que eu sempre tive”. Por outro lado, ela também dá muito medo, pois passamos a ver como o mundo é machista, misógino, como trata as mulheres e meninas e como não somos mais que um mero pedaço de carne em algumas partes do planeta. Aquela famosa frase de mascuzinho “ainn, feminista vê machismo em tudo” faz sentido porque SIM, vemos machismo em tudo porque ele entra nas nossas TLs, nas revistas, nas aulas, no ônibus, no táxi, na rua, na escola, na universidade. Ele está em todo lugar e por estar tão disseminado não é fácil se distanciar dele.

Já perdi “amizades” por ser feminista e um ex- tinha todas as qualidades de um genuíno machista, ele apenas me enganava para mostrar que não, que era pró-feminismo. Hoje, pensando nesse relacionamento, penso o quanto a paixão pode nos deixar cegos. Pus até amizades entre aspas, porque alguém que me acusa de querer exterminar homens não é meu amigo e não entende uma porra de feminismo, é só mais um reacinha de Facebook que tem medo de perder privilégios. Pior reaça que existe é aquele que gosta de dar carteiradas e esse ainda veio com esse papo.

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Então, resumindo, o que acontece quando você se descobre feminista? É uma variedade de emoções. Você se sente feliz por não estar só, mas pode perceber que, à sua volta, as pessoas da antiga convivência estarão sob maior escrutínio da sua parte. E eles também a olharão com uma certa indiferença, incompreensão e dificuldade de compreender do que tanto você reclama. Você passará a ser a chata da turma da faculdade, do trabalho, pois qualquer piada deles pode cair mal, já que esse “humor”, em geral, é bastante preconceituoso.

Mas você será livre. E tentará sempre se livrar de todas as amarras que ainda nos prende. Não é um processo fácil e a gente tem que aguentar muita merda, até de amigos, porém vale à pena.

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