Hoje eu quero falar da minha amiga

Hoje eu quero falar da minha amiga Deise*. Deise e eu nos conhecemos desde o jardim de infância. Depois fomos para o mesmo colégio católico, na mesma série. Íamos e voltávamos na mesma perua escolar porque morávamos no mesmo bairro. Éramos amiguinhas inseparáveis, daquelas de ir na festinha de aniversário uma da outra, de comer o lanche no recreio juntas. 

Deise, no entanto, não foi comigo para a 2ª série. Ela foi reprovada por falta. Quando eu estava passando para a 4ª série, ela foi reprovada novamente por faltas, na 2ª série. Resultado: ela reprovou a 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª (onde nos encontramos de novo, pois eu reprovei a 4ª série e fiquei fora da escola por 1 ano), a 6ª, a 7ª e 8ª séries. Tudo por falta.

Deise saía de férias como todos nós em julho, mas desaparecia nos dois ou três meses seguintes e acabava reprovada quando voltava para as aulas. E aí, você se pergunta: o que ela fazia tanto fora da escola? Bem, a família tinha casa em Portugal e a família viajava todo ano e passava três ou quatro meses por lá. Quando voltavam, minha amiga Deise já tinha perdido o ano letivo. Depois de tanto pagar pelo colégio regular, a mãe resolveu colocá-la na suplência para terminar o ensino médio. Ela reprovou o 1º ano também.

Mantínhamos um contato intermitente, aqui e ali. Eu precisei largar o colégio pra trabalhar, mas ela foi pra faculdade. Começou fisioterapia na São Camilo. Largou porque não gostou. Foi para a Psicologia na Unip, se não me engano, também largou. Todos cursos pagos, ora pela mãe, ora pelo irmão mais velho. Resultado, largou e não quis mais voltar, achava que não tinha nenhum curso que a agradasse.

Hoje ela casou, é secretária, tem filhos lindos, porém tem um pensamento que me incomodou muito:

VAMOS TRABALHAR MEU POVO….pra auxiliar nas bolsas. …
Bolsa família…bolsa prostituição…bolsa cadeia…bolsa noia…..
E isso ai…!!! — se sentindo decepcionada.

É. Minha amiga de classe média alta, que viajava para Portugal todos os anos, que sempre teve carro à disposição, com uma família que tinha capacidade de pagar sua escola e por todos os anos em que repetiu de ano, está se sentindo decepcionada porque o candidato da classe mérdia não ganhou. Na visão dela, o governo não tem que dar bolsa de nada, esse povo é que é tudo vagabundo, fazendo filho e se aproveitando daqueles que trabalham, como ela.

sadness

Fiquei muito decepcionada de ver ela escrever isso, mas por outro lado não me surpreendeu. Classe média, seja o nível que for, tem muita dificuldade de ver os outros, de enxergar os outros, de ter a empatia de se colocar no lugar de uma mulher do sertão, pobre, precisando alimentar os filhos e de como o Bolsa Família faz a diferença ao colocar na mão dela esse poder. Essa minha amiga, provavelmente, nunca leu nem nunca lerá os índices de fome que caíram, nem os textos que falam sobre o emponderamento de mulheres nas regiões mais miseráveis do país por conta de um Bolsa Família.

E por que isso? Essa minha amiga teve mais que uma oportunidade na vida. Teve todas. Pode estudar, viajar, conhecer o mundo, constituiu sua família e tem dinheiro para sustentá-la. Como ela vai entender a posição da Edineide, lá no Jequitinhonha, que agora pode alimentar seus filhos sem ficar sob o jugo do marido? Nunca vai entender, porque empatia é algo que a gente tem que exercitar sempre ou é uma qualidade que a gente perde.

Eu realmente espero que o governo reeleito seja melhor do que o anterior. Ele não é um governo perfeito, mas ao menos pensou mais na população brasileira miserável do que seus antecessores. O que minha amiga Deise não entende é que os governos sempre olharam para sua classe média e seu nível de vida. E está incomodada por ver um governo olhar para os mais pobres e não para ela. Deise, minha amiga, você é mimada. Simples assim.


O Bolsa Família e a revolução feminista no sertão

❤ *nome fictício

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