Feminista… até a página 2

Esta semana explodiu um saco de chorume na internet. Um conhecido professor de esquerda, que se dizia feminista, que apoiava os direitos humanos, tida como muitos por um intelectual, uma fonte de sabedoria, a última Coca-Cola do deserto foi acusado por diversas mulheres de assédio e abuso pela internet. O professor, chamado Idelber Avelar, é o tipo de cara que manda foto de pau e diz que adora provocar “corno”. Além disso, só gosta de fazer sacanagem com mulheres casadas. 

E daí?, você pergunta. As feministas agora tão querendo ser moralistas, querendo impedir a transa, o sexo, dar de quatro, chamar de puta e de mandar foto de pau? Será que as feministas estão querendo acabar até com a putaria? Pois é, foi disso que muitas FEMINISTAS (até coloquei em letras grandes aqui pra você não ter dúvidas) acusaram as vítimas do professor. Disseram que era o cúmulo do moralismo querer parar com a sacanagem, com a putaria saudável.

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Eu sou uma mulher cisgênera, heterossexual, portanto curto pau, curto homem, curto corpo de homem, curto sexo, curto dormir de conchinha, de receber foto de pau, DESDE QUE ISSO TUDO SEJA CONSENTIDO. CONSENTIDO, EU TENHO QUE DIZER ‘SIM, EU QUERO RECEBER FOTO DE PAU’. O que esse professor fez foi constranger as mulheres, mandando fotos NÃO CONSENTIDAS, chamando as mulheres de putinhas, vagabundinhas, gostosas SEM CONSENTIMENTO DELAS, perseguindo e assediando, inclusive, uma menor de idade.

Ver homens que se dizem aliados fazendo esse tipo de coisa não é surpreendente. O mais surpreendente de tudo isso é ver feministas ofendendo as vítimas, tirando sarro, dando nó em pingo d’água, defendendo o professor Idelber (que já excluiu seu perfil do Facebook, seja por vergonha ou por medo do escracho público), dizendo que as ‘feminazi’ querem acabar com o sexo saudável entre adultos. Na boa, gente, não há nada de saudável em mandar fotos do próprio pau para desconhecidas sem que elas peçam.

O comportamento do referido é típico do machista que acha que o mundo deve girar ao redor do pau dele e para quem não existe mulher dizendo ‘não’. Na cabeça dele, o mundo lhe deve obediência, portanto ele pode sim mandar a foto da sagrada piroca dele sem sentir culpa. Sem contar que as mulheres se aproximavam dele por admirarem seus discursos e suas posições pró-feminismo. E ele se aproveitava dessa ‘confiança’ prévia delas para começar o assédio.

Antes de tudo isso estourar, uma amiga querida já tinha me contado sobre esse cara e o que ele tinha feito com ela. E sabe o que aconteceu? Ela ficou se sentindo culpada pelo comportamento abusivo do professor Idelber. Entender que não é culpa nossa nessas situações não é uma tarefa fácil. E infelizmente tem gente que é incapaz de entender isso, de entender o quão incapacitante isso é. A gente tem que se virar com o sentimento de culpa porque acha que ‘o mundo é assim’.

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Não é assim não, porra! NÃO PODE SER ASSIM! A mulher já é culpada por tudo. Por ser estuprada, por engravidar, por abortar, por ser assediada, pela violência que sofre! O que as pessoas que estão defendendo o professor – inclusive feministas – estão fazendo é simplesmente repetir o mesmo discurso de uma sociedade patriarcal que culpa as mulheres pelas violências que sofrem. Relações abusivas existem, sejam virtuais ou reais, e muitas mulheres não percebem que estão sofrendo abuso porque acham que é assim mesmo que tem que ser e que se tem algo errado a culpa é delas.

Eu estou bastante decepcionada de ver feministas agindo desta maneira. Duvidar da vítima é algo que deveria ser tabu dentro do feminismo. Alguns homens falando essas merdas é até de se esperar, mas ver mulheres rindo das vítimas e tirando sarro das situações e dos prints dos assédios é simplesmente nojento e desesperador, porque vemos que até mesmo dentro do feminismo tem mulheres agindo como mascus e como o resto do mundo patriarcal e misógino que nos atribui a culpa por qualquer coisa que nos aflija.

Já tem feminista dizendo que outras feministas estão querendo proibir putarias na hora do sexo, que chamar de puta na intimidade não pode. Gente, estando consentido, sendo seguro para todos os envolvidos, pode rolar suruba coletiva no Pacaembu! O que não pode é mulher acuada por manipuladores misóginos que estão se usando de uma posição de poder para silenciar, controlar e assediar. Será que é preciso ser feminista para ver isso??


Veja neste tumblr os prints com as denúncias contra o professor.


Moralismo é seu pau de óculos

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Um comentário sobre “Feminista… até a página 2

  1. Estou de cara… nunca tive amizade virtual com o professor, mas também admirava o discurso dele e o seguia no Facebook. Durante uma parte do texto, quis acreditar que seria algum mal-entendido, que se estava falando de outra pessoa. Foda isso. Nada mais parecido com um machista de direita, quanto um machista de esquerda… Essas situações me deixam (enquanto homem, cis, hétero) com vergonha e reforçam em mim a convicção de que precisamos superar o machismo, a misoginia, todas essas construções históricas e sócio-culturais que permitem a violência de gênero, os privilégios doa homens (meus privilégios na sociedade), a violência contra a mulher. Todo o meu apoio e solidariedade às vítimas desse assédio covarde, e meu repúdio à conduta do professor. Não dá pra justificar o injustificável, não é aceitável responsabilizar as vítimas (ou quem as defende), não há neutralidade possível nesse caso: quando se toma conhecimento de uma coisa dessas, ou se luta contra essas violências, ou se é cúmplice delas.

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