Estado Islâmico é cria dos Estados Unidos

Vi essa interessante entrevista de Noam Chomsky no mesmo momento em que passava a reportagem sobre a destruição de obras da civilização assíria no Iraque. O Estado Islâmico é algo tão brutal, tão misógino, tão cruel, que me intriga como esse tipo de gente pode existir. É então que Chomsky nos explica o que está acontecendo e como a coisa chegou a esse ponto. Não traduzi a entrevista inteira, pois ela trata também de Israel e Iêmen, mas você pode ler aqui.

As raízes do EI, ou ISIS, derivam da desastrosa política externa dos Estados Unidos. O Iraque, apesar dos pesares, antes da invasão em 2003, não continha o clima de tensão e sectarismo que nós vemos hoje. Destruído pela Guerra Ira-Iraque, depois pela Guerra do Golfo e pelas punitivas restrições da ONU, o país não tinha esta divisão.  A vida no Iraque era, claro, muito difícil. Porém era possível ver xiitas e sunitas e curdos convivendo no mesmo bairro, onde não havia nenhuma discordância. Era como dois grupos de protestantes morando numa mesma rua. Eles são cristão em essência, não havia porque brigar.

EstadoIslamico
Aí os Estados Unidos invadem o país em 2003. O ataque foi descomunal e brutal, comparado com a invasão mongol centenas de anos antes. Centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados e pessoas expulsas de suas casas, destruição de sítios arqueológicos. A economia do país parou e foi jogada na miséria.

Um dos efeitos mais cruéis da invasão foi a instituição de divisões sectaristas na sociedade. Esta foi uma política da invasão, elaborada por Paul Bremer: separar os grupos e depois jogá-los uns contra os outros. Se brigassem entre si, não poderiam se opor às forças de invasão. Em poucos anos, uma grande guerra civil instigada por um profundo e brutal sectarismo se instalou.

Se olharmos um mapa de Bagdá de 2002, por exemplo, veremos que não havia divisão entre os bairros e as pessoas. Sunitas e xiitas viviam nos mesmos bairros, casavam entre si e até em alguns momentos era impossível dizer quem era quem. Não havia um conflito armado entre eles. Mas em 2006 havia uma guerra feroz, com um conflito se espalhando por todas as regiões do país. Hoje, todo o Iraque foi tomado por conflitos entre sunitas e xiitas.

A dinâmica natural de um conflito desses é que os elementos mais extremos começam a tomar conta dele. Existem raízes para isso. E estas raízes estão na Arábia Saudita, o maior aliado dos Estados Unidos na região desde sua própria fundação. E a razão principal para esta amizade tão colorida é petróleo. Muito petróleo.

mapaestadoislâmico

Grã-Bretanha, antes dos Estados Unidos, sempre preferiu o radicalismo islâmico ao nacionalismo secular. E quando houve a invasão, isso não mudou. O radicalismo islâmico é centralizado na Arábia Saudita, pois é o país muçulmano mais extremista e radical do mundo. Se compararmos, faz o Irã parecer amigável e tolerante, moderno e contemporâneo.

Arábia Saudita não apenas é dirigida por uma versão extrema do Islã, a versão Wahhabi Salafi, como também é um estado missionário. E ele usa sua riqueza derivada do petróleo para promulgar suas doutrinas sobre a região. Com isso eles constroem escolas e mesquitas, do Paquistão ao Norte da África.

Uma versão extremista do extremismo saudita é a doutrina escolhida pelo Estado Islâmico. Cresceu, ideologicamente, de uma versão extremista do Islã, a versão saudita, e com os conflitos no Iraque iniciados pela invasão da coalisão, que fomentou conflitos sectaristas agora espalhados por todo o país.

Arábia Saudita não apenas provê o núcleo ideológico extremista do EI, como também os financia. Não o governo saudita, mas ricos e milionários da região, como do Kuwait, fornecendo o financiamento para todo tipo de grupo jihadista da região. E conforme os conflitos se tornarem cada vez mais violentos e extremos, mais grupos ainda mais cruéis aparecerão. Isso é o que acontece quando a violência se torna o meio de interação. É quase automático. Se o EI for destruído, eles acabarão com algo pior nas mãos.

Estado Islâmico é algo que, profundamente, me apavora, pois eles estão engajados, são financiados e proferem uma versão radical de uma religião que é, em essência, tolerante e que não prega genocídio. Eles estão distorcendo o Islã e proferindo sua versão mortal sem ter nada a ver com o que Maomé disse ou pregou. No que eles são diferentes dos Gladiadores do Altar do bispo Macedo, quando falamos de suas ideologias? O fundamentalismo distorce, destrói e pune aqueles que não têm nada com isso. E se o EI cair, é muito provável que coisa pior tome seu lugar.


 

What ISIS really want?

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