Comentando como homem

É engraçado como as coisas são, né? Nos últimos eu tenho evitado todo o tipo de confronto, porque eu não sou obrigada a aguentar essa merda, todo esse chorume, todo esse ódio generalizado. Resolvi então fazer um teste e criei um nome masculino qualquer, um email qualquer e comecei a comentar como homem em portais e blogs. E venho fazendo isso nos últimos 3 meses. 

É detestável ter que assumir um gênero que não é o meu, mas estou de saco cheio de apanhar em áreas de comentários por ser mulher e por ter opinião. Aí resolvi radicalizar. A primeira impressão que tive foi que o tom das críticas mudou consideravelmente. Se antes eu era a feminazi loka, agora eu sou o mangina ou o escravoceta. Ou seja, a misoginia se manifesta logo de cara. Se eu não sou mulher, o que é ruim, eu sou escravo de uma, o que é pior ainda na visão deles.

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Segunda coisa que eu notei é que minhas opiniões são muito mais levadas a sério e muitas vezes ninguém me refuta. Eu faço e meu comentário não recebe resposta. Mas se eu faço um comentário com o mesmo teor, como mulher, a crítica chega rápido e da mão de homem machista. Como homem, eu pareço ter credibilidade, como mulher é só uma loka mesmo.

E olha, é em qualquer tipo de comentário. Se o post é feminista, se não é. Se é sobre política, se não é. Se é sobre cultura, se não é. E tenho tido apoio de mulheres que se sentem seguras porque tem um homem que as apoia na área de comentários, área que costuma ser totalmente tóxica e hostil às mulheres. É difícil vermos homens nestes lugares com comentários que não sejam de ódio, pois a maioria é. E os poucos caras que comentam não sofrem o tipo de comentário agressivo que a gente recebe.

Não é diferente do que a gente vê a vida toda. Mulheres são interrompidas enquanto falam, são silenciadas, têm seus trabalhos roubados por homens, não são reconhecidas. As caixas de comentários são uma extensão da vida. E assim como tem gente que pensa, tem quem não pense e vomite preconceitos por lá.

Quando a mim, vou continuar comentando como homem para ver até onde vai. Não gosto disso, gostaria de ter minha voz sendo ouvida, mas se posso ajudar alguém dessa forma, vou continuar fazendo. É muito triste ter que adotar outra identidade para ser lida e ouvida, mas vou usar isso da melhor forma que eu puder.

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