Pra que escrever uma cena de estupro?

Game of Thrones é uma série que nunca consegui assistir, apesar de ser bem fã dos livros. Adoro os livros, li todos, tenho os livros físicos mesmo, tijolões, na estante. Mas a série, por suas diversas modificações com relação aos livros me desagradou imensamente. E me desagradou ainda mais quando os putos dos roteiristas ou o caralho que for que comandam aquela merda, resolveram mudar cenas de sexo consensual nos livros para cenas de estupro em seus episódios. Pronto, foi a gota que faltava. 

Eu aprendi a respeitar Sansa Stark, pois no começo eu a achava a personagem mais babaca de todos os livros. Mas ela tem aprendido a se virar e aprendido a jogar o jogo dos tronos e tem melhorado no meu conceito. Infelizmente, ela também foi a escolhida para a cena de estupro que fechou o último episódio da série, o que causou uma imensa revolta – e com razão – nos espectadores mais conscientes da inutilidade adquilo. Até mesmo na página oficial de Game of Thrones Brasil, uma das blogueiras decidiu parar de assistir à série pelas desgastantes e completamente inúteis cenas de abuso, violência e estupro contra as mulheres.

Sansa Stark.

Sansa Stark.

Aí sempre aparece aquele pau no cu pra dizer “ahhh, mas aquilo é Idade Média, naquela época era normal, vai“. Pra começar, seu abestado, Game of Thrones não se passa na Idade Média. Aliás, nem se passaria na Terra, afinal não temos aquela configuração continental. Não se passa na Terra como Senhor dos Anéis também não passa. Segundo lugar, os autores da porra da série já deixaram claro que eles não estão seguindo os livros. Martin é um autor sagaz e muito capaz, que gosta de escrever mulheres incríveis. A violência é algo que, infelizmente, é natural na raça humana. E vemos isso em todo o seu esplendor nas páginas. Mas mesmo as cenas de violência ali têm um propósito. Por que a série só explora nudez e violência feminina?

O problema da série é simples: a HBO e a própria série Game of Thrones tem toda uma patota na audiência de homens brancos cis heteros de classe média que adoram essa violência toda, ainda mais quando é com as mulheres. São os mesmos sujeitos que consomem o pornô violento e misógino que trata mulher como uma boneca chupadora de paus, com um cu e uma buceta, sem nenhuma vontade própria. Quando você coloca uma cena inútil de um estupro, e no caso da Cersei foi ainda pior, pois a cena original era consensual, você está naturalizando uma atitude violenta e, por muitas vezes, um fetiche de muitos espectadores.

Troque Sansa ou Cersei e coloque uma criança de seis anos sendo estuprada. Coloque essa cena no ar e espere para ver se alguém vai se sentir confortável, pra ver se vai dizer que na época era assim mesmo. Mas quando é uma mulher ninguém se incomoda, por que será? Por que uma criança incomoda o espectador e a mulher sendo violentada sem nenhum propósito nem pra ela, nem pra série, tá de boa? A mulher na série, assim como na vida, é desumanizada. Ela perde o status de ser humano para ser um mero brinquedo nas mãos dos personagens e dos roteiristas.

Nossa sociedade relativiza o estupro, é por isso que a cena não incomoda. As vítimas são esquecidas e subjugadas, acusadas de terem oferecido e depois mudado de ideia, acusadas de terem provocado. E veja bem, eu não quero segurar a mão de autor nenhum. Mas a cena de um estupro precisa de um propósito, coisa que em Game of Thrones não vemos em lugar nenhum.

Então, antes de botar essa cabeça pra funcionar e escrever uma cena dessas pense no seguinte:

  1. O que estou querendo dizer com essa cena? Qual é sua função?
  2. Ela é necessária para a trama? O texto vai se despedaçar se essa cena não for incluída?
  3. O enredo tá focando na vítima ou no estuprador? A vítima vai ser esquecida no processo?
  4. Se eu trocar essa personagem por uma criança pequena, a audiência vai aceitar a cena? Ou ele vão achar que ela foi desnecessária e vão descer o pau em mim?

Depois de fazer esses questionamentos, pense se a cena vale à pena mesmo. Pois talvez você apenas esteja naturalizando violência contra a mulher sem nem mesmo se dar conta. E para aqueles que não entendem porque a gente fica puta com o estupro de uma personagem fictícia, lembre-se que vida e arte estão unidas. Nada é feito solto no espaço e no tempo. Existe todo um conceito por trás dos estupros de Game of Thrones, que nada mais é do que misoginia.

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