Ex-amigos

Eu não tenho muitos amigos. Amigas então, pior ainda. Por essa razão não tenho também muitos ex-amigos, mas tem um caso em particular que merece menção. Assim como temos ex-namorados, ex-sogras, ex-chefe, acho que devemos ter o direito de ex-amigos. Ninguém é obrigado a ter que conviver com alguém que te magoa e te faz de trouxa.

Chamemos essa amiga de F.. F. e eu éramos amigas inseparáveis na adolescência. Ela era amiga de outra amiga, mas ficamos muito próximas assim que ela mudou de horário e passou a estudar de manhã com a gente. Nossa turma de quatro garotas andava junta, ouvia as mesmas bandas de heavy metal, íamos ao fliperama, comíamos no McDonald’s toda semana.

A turma se separou quando nossa amiga M. repetiu de ano e nós três seguimos para a 8ª série. A turma se separou mais ainda quando R. voltou para o Rio de Janeiro. Dessa forma, a turma inseparável ficou reduzida à uma dupla no 1º ano do ensino médio. Nossa rotina escolar maçante era mitigada pela companhia uma da outra. Como eu ficava sozinha em casa o dia inteiro com a minha mãe trabalhando, eu passava tardes inteiras na casa da F.. Falávamos ao telefone todo dia depois da escola caso eu não estivesse lá. Íamos em shows de nossas bandas preferidas, comprávamos as mesmas camisetas, dormíamos na casa uma da outra.

F. era bem de vida, eu era a ‘classe média baixa’. Várias vezes ela pagou lanche, livros, ônibus, me deu presentes maravilhosos e com muito amor. Eu tinha uma irmã de verdade, era o que passava pela minha cabeça. Tentava recompensar do jeito que eu podia, com amizade, porque dinheiro eu nunca tive muito. Mas aí a crise atinge a todo mundo, especialmente aqueles que já têm pouco.

Minha mãe perdeu o bom emprego que ela tinha. Meu padrasto era um muquirana inútil e a situação dos dois só piorou. Fui obrigada a sair do colégio onde F. e eu estudávamos, fui para a suplência, já que eu tinha idade pra isso. A gente se via menos, mas ainda estávamos sempre em contato, por telefone, por carta, ou a gente almoçava juntas num shopping, a gente dava um jeito.

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A coisa mudou sensivelmente quando ela começou a namorar um garoto do novo colégio para onde ela foi quando repetiu o primeiro ano do ensino médio. Ela se afastou, se distanciou, chegou a noivar com o rapaz. Ele era o ‘amor da vida dela’, assim ela me disse várias vezes. Um dia, como toda amiga que se preze, eu disse pra ela ir com cautela no relacionamento. Achava que era muito cedo pra ela bradar aos quatro ventos que ele era o homem de sua vida. Tomei um esporro homérico por causa disso e foi ele quem veio em socorro pra tentar nos aproximar de novo. Curiosamente ele virou meu amigo por um tempo e me defendeu diante dela.

Até aí, tudo bem. Que amigo nunca se estranhou com o outro, certo? Em todo o tempo de amizade com ela, que durou uns dez anos, a gente tinha se estranhado apenas duas vezes. Relevei e a vida seguiu. Até que chegou o momento em que um aviso de despejo bateu na minha porta. Eu estava procurando emprego e não vinha nada, minha mãe e eu estaríamos na rua se não deixássemos a casa.

Eu acessava a internet na época de uma lan house dentro de um supermercado. Um dia, muito triste e assustada com tudo o que estava acontecendo, mandei um email pra F. contando o que estava acontecendo, que eu estava com medo, triste, temendo ficar na rua, que eu não sabia mais o que fazer.

A resposta foi mais ou menos assim: “Ahh, vai, para de reclamar! O que você está fazendo pra mudar essa situação? Nada, né? Tá só aqui reclamando da vida! Quem procura acha! Você tem que se mexer, tem que sair desse comodismo e lutar pelas coisas que você quer! Para de choradeira!”.

Eu fiquei bem chocada com essa resposta. Tipo, MUITO chocada. E só depois de longos anos é que me liguei do papo de privilegiada de F. pra cima de mim. É o mesmo papo da classe média que diz que um garoto da favela pode ser presidente de uma empresa, é só trabalhar muito e parar de “vitimismo”. Vitimismo tá em moda hoje quando uma minoria desfavorecida resolve botar a boca no trombone para falar de toda a desigualdade que nos atinge, mas na época a palavra era pouco usada.

Mas minha amiga que mora nas Perdizes em um apartamento de 200m2, que nunca precisou se preocupar com o dia seguinte, se ia ter comida, ou água, ou luz dentro de casa, que nunca trabalhou, que teve faculdade paga pelo pai e nunca exerceu a profissão porque “não quer começar ganhando pouco”, achava que eu estava de mimimi. Que eu tinha dois braços pra trabalhar e tava reclamando sem me mexer.

A amizade morreu com esse email. Agradeci pela resposta e disse que eu achava que estava desabafando com uma amiga, mas que tinha me enganado. No fim, aquele namorado por quem ela tinha discutido comigo tomou um belo par de chifres dela. Ela recebeu propostas ótimas de estágios em grandes instituições, mas estágio ou pagava pouco ou não pagava nada. Imagina que ela trabalharia por tão pouco??

Tentamos nos reaproximar quando M. morreu. Fiquei chocada com a morte de M. e não entendo até hoje. F. me avisou que ela tinha morrido e tentamos conversar sobre o que poderia ter acontecido. Aí um dia F. me perguntou porque eu a odiava. O que ela tinha feito? Fiquei sem chão quando ela perguntou isso. Mas hoje eu entendo que, na cabeça dela, F. não fez nada errado. Os privilégios que ela tem são invisíveis para seus olhos, mas não para os meus, despejada de casa e lutando pra ter alguns trocados pra comprar o pão naquela época. Uma tarde, minha mãe e eu tínhamos apenas apenas arroz cozido e uma cebola pra comer enquanto eu aguardava meu primeiro salário cair. Isso F. nunca viveu nem nunca viverá.

A gota d’água foi um email em que ela perguntava se estava tudo bem, como eu andava, se a gente podia se encontrar pra almoçar. Respondi que estava ocupada trabalhando e que naquela semana não daria. Perguntei o que ela andava fazendo: hoje ela trabalha no negócio do pai, cuidando do financeiro, totalmente diferente de seu curso de formação. E que naquela semana ela ia fazer um tratamento com carboxi-sei lá o que, porque na nossa idade “a gente tem que cuidar do corpinho, né?”.

Parei por aí. Ela não me procurou mais, nem eu a ela. Somos pessoas completamente diferentes e não tem nada nessa mulher que me lembre a minha grande amiga de vinte anos atrás. É uma pessoa tóxica pra mim, não quero esse tipo de ‘amizade’ na minha vida. Ninguém deveria ter.

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Nesse dia do amigo eu desejo que você esteja cercado de bons amigos, amigos de verdade. Eu certamente ainda estou procurando.

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