Não, eu não quero poliamor

Hoje em dia poliamor, poliamorismo, tá bem na moda. Sim, devemos questionar instituições ultrapassadas e que trazem problemas e sofrimentos, devem rever privilégios e posicionamentos, devemos olhar o mundo e ver que nossos gostos e nossas formas de vida não são sempre a mais correta. Devemos sim questionar muita coisa.

Mas quando vejo gente branca, hetero, de classe média, dizendo que devemos abandonar de vez a monogamia e se jogar de cabeça no poliamorismo, como se isso fosse salvar a humanidade eu mando tomar no cu. Na boa. É um discurso bem bonitinho feito assim, né? Mas e aquelas pessoas, como eu, que nunca tiveram direito ao amor, que nunca tiveram direito ao relacionamento saudável com outra pessoa? Eu devo me jogar nisso, só por que vocês querem?

Não, lamento. Tem gente que nunca teve direito ao amor, aos relacionamentos, ao sexo gostoso e sem culpa com alguém que realmente nos ame. E já tem gente que sempre teve direito ao poliamor, como os homens. Sim, eles sempre tiveram esse direito. É a esposa em casa, a namoradinha na academia, a amante no escritório. Para o homem o poliamor nunca foi novidade, ao contrário, sempre foi obrigatório. O homem nunca precisou se preocupar em se manter fiel a alguém, física e emocionalmente, pois é o comportamento esperado e fomentado entre eles a vida inteira.

poliamorismo

Quero você essas pessoas brancas, classe média, hetero, levarem esse discurso de poliamor para as travestis, para as negras, para as gordas e dizer a elas “ahh vai, larga de querer ser monogâmica, vamos tudo se amar, vamos nos libertar das amarras” quando nunca tivemos direito a qualquer tipo de relacionamento. Fale sobre poliamor com uma mulher vítima de violência doméstica, que vê o marido chegar toda noite depois de encontrar a amante para descer a porrada nela e nos filhos.

Fale de poliamor para essas pessoas que nunca se sentiram amadas, que foram objetificadas por serem gordas, por serem negras, por serem trans*. Leve esse discurso para elas, convença-as de que essa vida é maravilhosa, fale para as pessoas que só se relacionam com alguém quando tem sentimento por ela, e daí se elas aceitarem com um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos, se sentindo libertas das amarras da nossa sociedade, só aí eu vou ouvir seu discurso de paz e amor.

Porque enquanto as mulheres ainda não tiverem acesso ao amor básico que qualquer ser humano deveria ter por outro, porque enquanto as gordas forem consideradas mulheres de menor valor, vistas como objetos sexuais, como um achievement de um jogo, enquanto negras forem consideradas naturalmente selvagens e, portanto, tratadas como seres sexuados e ultra erotizados, enquanto essas pessoas todas não tiverem acesso ao amor básico, não tiverem companheiros e companheiras que as tratem com o devido respeito, seu poliamor não me contempla.

O principal argumento [do poliamorismo] é que existe vínculo afetivo, em que o amor é dividido por todos que participam da relação. Aceito e assumido, a intenção não é enganar ou trair o outro. Todos devem saber a presença de outros nesta relação. O consentimento é natural.

Lindo, né? Então trate de consentimento com aquela mulher que precisa transar com o marido por obrigação. Estupro marital é algo que alguns juristas nem alegam existir, pois na cabeça da maioria, se o homem quer trepar, a mulher tem que dar, foda-se o consentimento dela. E agora? Cadê teu poliamor?

Cadê teu poliamor para as mulheres que não conseguem ter prazer sexual porque foram abusadas ou que tiveram o clitóris extirpado. Me fale mais desse lindo poliamor em que todos se respeitam? Será que essas mulheres poliamoristas estão nesses relacionamentos por que querem e estão conscientes de seus sentimentos ou elas estão lá por uma pressão patriarcal que faz parecer que essa escolha é delas? Porque assumir uma sexualidade livre e desimpedida pode não ser o feminismo agindo.

Esse papo todo de poliamor goela abaixo dos outros está me parecendo o papo do coletor menstrual. É uma coisa incrível, acho ótimo que ele tenha surgido, está revolucionando muita coisa na vida de milhares de mulheres. Mas não obriguem todas as mulheres do mundo a trocar os métodos que usam pelo seu. Não venha com papo de síndrome de choque tóxico, que é algo que sempre veio nas bulas de absorventes internos e que são casos raros o suficiente para permitir a liberação de OBs, Tampax entre outros. Não me venha com o papo que absorvente fede, coça e o KCT, só porque VOCÊ acha que o coletor menstrual é a melhor coisa do mundo.

Feminismo branco hetero classe média pra mim já deu. Fale comigo quando você quiser lutar pela equidade e vida das mulheres ao invés de pautar suas camas. Fale comigo quando você lutar pelo empoderamento e pela autoestima de tantas mulheres destruídas pelas pessoas que passaram por suas vidas e que mal conseguem tirar a roupa de tanta vergonha. Se você conseguir convencer a todas essas mulheres o quanto o poliamor é maneiro e o quanto você está nele porque consegue amar várias pessoas, sem amarras, sem mentiras, sem enganação, aí eu te ouço. Caso o contrário, eu quero que se foda.

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