Por que How To Get Away With Murder é um marco para a televisão?

Só comecei a assistir essa série por causa da Viola Davis, minha cura hetero. Sempre a admirei, tanto como atriz como pessoa e ao ver que ela seria a protagonista desta série, que não costuma fazer muito meu estilo, resolvi arriscar e assistir. Quem não assiste e procura uma trama inteligente para ver, com diversidade e representatividade, por favor, não perca nenhum episódio desta série que é maravilhosa.

Mas por que eu considero um marco para a televisão? Simples: ela tem representatividade. Geralmente vemos séries onde os negros, os gays, as mulheres, são apenas coadjuvantes, enquanto aqui nós temos negros, gays e mulheres como protagonistas. O velho padrão homem-branco-cis-hetero não é o caráter dominante aqui, apesar de aparecerem. E isso é fantástico.

Para entender a série, comecemos por Annalise Keating, a advogada e professora criminalista que defende casos controversos, clientes mais controversos ainda e que precisa de cinco estagiários para seu escritório, onde já trabalham Bonnie e Frank, este último um tipo de faz-tudo, aquele que lida com a parte suja do trabalho. E tem muita parte suja aqui.

Annalise-Keating

Annalise Keating, por Viola Davis

Annalise pode ser cruel e inteligente ao mesmo tempo, pode ser maternal e fria, insensível e emotiva. Como advogada de clientes que, em muitas ocasiões, são realmente culpados de seus crimes, ela sempre precisa pensar em maneiras de sair de situações difíceis, manipular o júri, até mesmo inventando provas ou afastando a atenção do cliente para outra pessoa. Annalise é bissexual e expressa sua sexualidade livremente, com cenas muito sensuais. Onde na televisão ou no cinema nós vimos isso?

Se personagens negros sempre são vistos como coadjuvantes em filmes, alívios cômicos, empregados, bandidos ou escravos, temos aqui uma mulher negra que tem seu próprio escritório de advocacia, tem atitudes questionáveis e é ambiciosa. E não só ela, os personagens negros da série são todos muito bem caracterizados e interpretados e temos cenas em que eles dominam completamente. Só quem nunca foi bem representado pela mídia sabe o quanto isso é importante. Só a cena de Annalise conversando com a esposa do amante, o policial Nate, todos negros, já torna a série inteira uma obra-prima.

Connor Walsh, um dos estagiários do escritório de Annalise, é gay, sexy e se acha o melhor aluno da sala. Ele manipula as pessoas e chega a transar com os caras que podem ajudar Annalise a vencer algum caso. Este é um papel, normalmente, atribuído às mulheres fatais que seduzem e dobram as pessoas. Walsh não é um cara bonzinho, ele pode afastar seu caráter no momento que deseja se isso lhe trouxer algum benefício.

Connor Walsh

Connor Walsh, por Jack Falahee

Mikaela Pratt é a típica princesa que descobriu que o príncipe era sapo. Uma típica pratricinha que quer impressionar Annalise, que acaba descobrindo que o noivo encantado era gay e cujo noivado desmorona. Mikaela tem um visual romântico, típico de princesas, mas é extremamente inteligente, ambiciosa e em alguns momentos demonstra uma força que achamos que ela não tem. Em alguns momentos realmente achei que ela fosse fraquejar, mas não. Mikaela tem se mostrado uma estrategista e um lado sensível em vários momentos.

Mikaela Pratt

Mikaela Pratt, por Naomi King

Wes Gibbins é o que poderíamos chamar de líder nato. É também um dos mais inteligentes e espertos da série. É um tanto hostilizado pelos outros por ter ficado na lista de espera da faculdade, algo como uma cota para alunos pobres, mas que galga suas posições no ranking de Annalise, que confia muito nele e chega a protegê-lo. Wes está tão comprometido com os problemas de Annalise, que sabe que se ela cair, todos caem juntos. Mas Wes também tem dúvidas. Será que pode mesmo confiar em Annalise, que chegou a sacrificar seu relacionamento com Nate? Que encobriu não um, mas dois assassinatos brutais para proteger sua equipe?

Wes Gibbins, por Alfred Enoch

Wes Gibbins, por Alfred Enoch

O que How To Ger Away With Murder nos mostra são PESSOAS. E pessoas vêm em vários formatos, vivências, orientações e cores. Esta é uma série que foge dos padrões justamente porque ela está representando bem a raça humana, mostrando o quanto podemos ser bons, maus ou indiferentes, o quanto podemos proteger nossos interesses e o quanto nos arrependemos de nossas ações. As pessoas ali são extremamente complexas.

Viola Davis ganhou o Emmy, o Oscar da televisão, por seu papel como Annalise Keating. E isso tem um grande significado, pois ela concorreu com atrizes brancas, fazendo um papel de uma advogada criminalista e não de uma empregada ou de uma escrava. No Oscar e em outras premiações, é comum vermos os atores negros ganhando prêmios por terem interpretado pessoas perturbadas, empregados, escravos ou bandidos. Chiwetel Ejiofor, por exemplo, foi indicado ao Oscar por seu papel de um homem livre que foi obrigado a ser um escravo em 12 Anos de Escravidão, onde Lupita Nyong’o ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante com o papel de uma escrava.

Temos vários outros exemplos de atores negros ganhando prêmios por papéis assim e ver Viola Davis como Annalise Keating na TV é simplesmente fantástico. É um marco por si só para a televisão e para uma geração de meninas negras que estão vendo HTGAWM, Scandal, Empire, com grandes mulheres negras em grandes papéis.

How to Get Away with Murder (ABC/Bob D'Amico)

How to Get Away with Murder (ABC/Bob D’Amico)

Lembre-se que Whoopi Goldberg se inspirou no papel de Uhura em Jornada nas Estrelas. Foi quando ela soube que não precisava ser empregada, e sim o que ela quisesse ser. Espero de verdade que mais séries como essa apareçam na TV, séries que não apenas nos prendam por seus enredos, mas que demonstrem negros, gays, mulheres como pessoas, não como estereótipos inacabados e pobres que causam tantos danos. Pessoas têm múltiplas camadas, pessoas têm seus diversos problemas, seus conflitos e suas forças individuais. E HTGAWM nos mostra exatamente isso.

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