Por que usar bindi não é apropriação cultural?

Fiquei bolada outro dia com várias fotos da Selena Gomez usando bindi o tempo inteirinho. São fotos de um tempinho já, mas ela usava nos shows, na rua, em eventos, em tudo. E disseram que ela tava de apropriação cultural. Apropriação cultural é quando as pessoas se apropriam, por exemplo, de símbolos religiosos – geralmente gente branca, tá – e usam cotidianamente. Existe um significado por trás de um cocar indígena ou de um turbante tipicamente dos países da África. E se apropriar deles é feio, fruto de privilégio branco, de gente mal educada mesmo.

Mas o bindi me pegou. Fiquei confusa mesmo. Pra quem não sabe, o bindi é aquele adorno que muitas mulheres indianas usam na testa, entre os olhos. Pode ser só um pontinho vermelho, ou algum adorno com pedrarias, por exemplo.

Blogueira Anjali Joshi, com bindi

Blogueira Anjali Joshi, com bindi

Aí conversei com uma amiga pesquisadora que é indiana. Mandei um email pra ela perguntando sobre essa dúvida e o que ela achava. A resposta foi bem categórica: usar bindi não é apropriação cultural. Então ela me mandou um link de uma escritora e blogueira indiana radicada nos Estados Unidos que falou exatamente disso:

O grande problema com apropriação cultural acontece quando a adoção é nula do significado que ele deveria ter. Essa adoção retira o contexto religioso, histórico e cultural de algo e o torna consumo de massa. Isso é ofensivo. Eu não estaria deste lado do debate se estivéssemos defendendo cocares indígenas ou tatuagens iconográficas de tribos polinésias ou bandas celtas.

Por que o bindi não deve suscitar a mesma reação que temos com outros símbolos culturais dos quais falei, você pergunta? Porque a maioria das pessoas do sul da Ásia não vai conseguir te dizer qual é o significado religioso de um bindi. Da minha pequena pesquisa informal com 50 indianas, não pude explicar com precisão sua história, significado religioso ou espiritual. Não podemos acusar os não-hindus de transformar o bindi em um acessório de moda porque, bem, nós já fizemos isso. Nós fizemos isso muito antes de Vanessa Hudgens em Coachella 2014, muito antes de Selena Gomez no MTV Awards em 2013, e mesmo antes de Gwen Stefani em meados dos anos 90.

O que minha amiga explicou é que o bindi é um acessório, assim como meu brinco, pulseira ou corrente, algo que se usa para ficar bonita e para combinar com a roupa. Seja qual for o sentido original do bindi, ele está perdido nas brumas do tempo.

Anjali vai além. Ela diz que sim, algumas pessoas na Índia acreditam que não se deveria usar o bindi fora de propósitos religiosos. Mas então como argumentar a venda de imensas cartelas por algumas dezenas de rúpias pelas ruas da Índia, das mais variadas cores, formas, com pedrarias?

Toda cultura evolui. Os turbantes da cultura mogul, por exemplo, foram espalhados pela Europa e ainda hoje utilizados como acessório de moda. Quem inventou o brinco? Qual povo? Devemos parar de usar? Quantos acessórios de moda nós utilizamos que vieram de outros povos e culturas e que sim, podem até mesmo ter tido um simbolismo religioso no passado, mas que hoje permeia tantas sociedades diferentes que é impossível traçar sua origem?

O bindi é um acessório de moda, como os próprios indianos dizem e até comercializaram o símbolo em imensas cartelas vendidas em casas de bijuterias. Mas não devemos esquecer que existem outros símbolos que se foram usados fora do contexto serão sim considerados apropriação cultural. A gente tem, apenas, que saber do que estamos falando.


Why a Bindi Is NOT an Example of Cultural Appropriation

Sobre turbantes, apropriação cultural e a humanidade

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