8 de Março

Esse 8 de Março foi o mais politizado que já vi. E olha que já vi uns bons 8 de marços antes na vida pra saber que esse foi diferente. Teve um Q a mais. Vi muitos caras conscientes em suas posições os suficiente pra não mandar porra de mensagenzinha de flor. Vi muita mina se organizando e criando campanhas, vi o jornal da minha cidade falar que “lugar de mulher é onde ela quiser” e depois falar das estatísticas de violência, da diferença salarial, da percepção de parte da população de o que é ser mulher. Sério, eu nunca vi isso quando era adolescente nos anos 90.

Lembro muito bem das vezes em que recebi uma rosa murcha com o calor de março e um sorrisinho amarelo do cara que tentou me agarrar na festa da firma. Lembro de todas as vezes em que fiquei com caras sem nem querer porque me achava “moderna, evoluída, emancipada”. Eu “não era como as outras”. E os caras achavam um máximo, me tratando feito lixo e eu aceitava. Me sentindo culpada depois por ter ficado com eles, achando que tinha algo errado comigo.

Giovani Kososki

Minha mãe não me criou com base em muitos dos estereótipos que já vi por aí. Por exemplo, a competição. Eu só fui saber o que era isso na faculdade, quando uma colega competia comigo em tudo e eu, tonta, não percebia. Éramos melhores amigas, mas só depois do curso é que percebi que ela tentava me superar em tudo, só que a gente nunca entrou numa competição. Teoricamente, a gente estava lá pra ajuda ruma a outra.

Por outro lado, minha mãe é extremamente racista em seus comentários na TV. Aliás, qualquer mulher que apareça na TV, ela dispara comentários de todos os tipos de depreciação. Me entristece ver que eu luto tanto por um mundo mais igualitário, mais respeitoso, mas não consegui fazer isso dentro da minha própria casa. Fico me perguntando de onde minha boa educação veio.

Fiquei feliz mesmo de ver tanta mobilização. Desde a Marcha das Mulheres que tomou as ruas dos Estados Unidos e da Europa por conta daquele asno do Trump que venho notando as articulações, mais mulheres nas ruas, exigindo, cobrando. Nunca pensei que veria isso. Não cresci com essa coisa machista de “casar e ter filhos”. Claro, minha mãe já me cobrou algumas vezes, mas sou realista. Sei que não vai acontecer. E ela me cobra por ter uma família que ela nunca teve. Mas eu não posso suprir essa carência, sinto muito. Ela também não me cobrou por seguir uma carreira específica, queria que eu me formasse no que eu quisesse.

Mas sei que não é assim por aí. Sei que há mães e mães. E as próximas gerações precisam ser criadas em um outro contexto, especialmente os meninos, pra gente não criar uma geração de Trumps, Temers e Biels. Pra não ter um presidente golpista fazendo discurso enaltecendo a economia doméstica que a esposa cafetinada pela família faz. É brincadeira uma merda dessas.

Não acho que eu vá ver mudanças significativas no Brasil tão cedo que seja positiva pra gente. É capaz que a gente mergulhe no obscurantismo político tal como os Estados Unidos com aquele asno de peruca e a Europa, se afundando no nacionalismo contra imigrantes. Mas hoje eu vi um pouquinho de esperança, então meu coração esquentou. Temos tanto a fazer, não temos? Mas acho que nunca verei as mudanças.

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